
Com um histórico político tão complexo, Portugal e Brasil talvez nunca cheguem a um acordo pleno. Concordar em discordar é o caminho mais harmonioso a seguir.
Digo o mesmo sobre os conflitos culturais entre Argentina e Brasil, mas o respeito mútuo pelas leis e costumes de cada país é um bom começo.
entre nós, meio-irmãos
Nas vielas de Alfama, sob roupa nos varais,
ecoavam dois sotaques, irmãos e rivais.
Num café de azulejos gastos pelo sal,
um lisboeta murmurava:
— Isto já não é Portugal.
Do outro lado da mesa, um brasileiro cansado,
com diploma na mochila e aluguel atrasado,
respondia num riso meio torto, meio feroz:
— E vocês acham que foram santos antes de nós?
As palavras tropeçavam no mesmo idioma,
mas cada sílaba parecia vir de outro bioma.
“Autocarro”, “ônibus”, “fixe”, “legal”,
a língua era ponte —
e também tribunal.
Os portugueses, de semblante contido,
olhavam os prédios vendidos, o bairro partido.
As rendas subiam como maré sem cais,
e muitos culpavam os recém-chegados demais.
— Os senhorios preferem estrangeiros,
pagam mais, vivem seis num quarto inteiro.
Havia raiva nos elétricos lotados,
nos anúncios de quartos improvisados,
na saudade de um país que mudava depressa
entre turistas, startups e promessa.
E entre alguns nacionalistas portugueses
crescia um orgulho de velhas altivezes:
— O Brasil fala nossa língua deformada.
— Lisboa virou samba, já não vale nada.
Mas havia também brasileiros inflamados,
filhos de metrópoles e sonhos frustrados,
que viam os portugueses como frios ancestrais,
presos à burocracia e aos costumes medievais.
— São arrogantes.
— Teimosos.
— Racistas às vezes.
diziam nas mesas de bares e redes.
E quando o sangue fervia na discussão,
vinha o bordão em tom de provocação:
— Devolvam nosso ouro!
Os portugueses reviravam os olhos no instante,
como quem já ouvira aquilo mil vezes antes.
— Lá vêm eles outra vez com essa história…
mas no fundo sentiam o peso da memória.
Porque havia um fantasma entre os dois continentes,
feito de caravelas, engenhos e correntes.
Portugal dera nome, língua e cruz ao Brasil,
mas também deixara cicatrizes de um passado hostil.
O Atlântico jamais apagou completamente
o ressentimento herdado silenciosamente.
Ainda assim, curiosamente,
havia afeto escondido sob cada ofensa ardente.
Portugal via o Brasil com espanto e ternura:
terra excessiva, musical, sem moldura.
Um primo barulhento que dança na tragédia
e transforma tristeza em comédia.
O Brasil via Portugal como um espelho antigo,
um pai pequeno, nostálgico e rígido.
Uma nação de ruas estreitas e fala baixa,
onde a saudade parece morar em cada faixa.
Nas padarias, tocava música brasileira.
Nas TVs, novelas cruzavam a fronteira.
Lisboa cantava sambas sem perceber
que parte de si aprendera a viver
na voz do outro lado do mar.
E apesar das farpas, da desconfiança,
das crises, do aluguel e da intolerância,
existia um pacto secreto, emocional,
selado não na política —
mas no futebol internacional.
Quando Portugal jogava contra a França,
muitos brasileiros torciam em esperança.
Quando o Brasil enfrentava a Inglaterra ou a Espanha,
portugueses vibravam em cada façanha.
Mas bastava surgir Brasil contra Portugal
para nascer uma guerra sentimental.
Famílias divididas, memes cruéis,
orgulhos históricos vestidos em camisetas e papéis.
Ainda assim, terminado o jogo e a confusão,
sobrava uma estranha sensação:
a de que ambos carregavam a mesma cicatriz,
dois povos separados
pela história que os quis.
Porque entre Lisboa e Rio, Porto e Bahia,
há mais do que disputa ou ironia.
Há um parentesco impossível de romper:
um ressentimento que aprendeu
a também se reconhecer.
— Adam Donaldson Powell


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