A forma como o Brasil e os brasileiros são percebidos por seus vizinhos sul-americanos e pelos portugueses 🇧🇷

Map of Brazil with neighboring countries Venezuela, Colombia, Peru, Bolivia, Paraguay, Argentina, Uruguay, Guyana, Suriname, and French Guiana with major cities and geographic features.

A forma como o Brasil e os brasileiros são percebidos por seus vizinhos sul-americanos e pelos portugueses

A forma como o Brasil e os brasileiros são percebidos por seus vizinhos sul-americanos e pelos portugueses é resultado de um conjunto complexo de fatores históricos, culturais, econômicos e políticos. Trata-se de uma imagem multifacetada, que mistura admiração, estereótipos, rivalidades e proximidade afetiva. Compreender essas percepções exige olhar tanto para o passado colonial quanto para as dinâmicas contemporâneas da região e da lusofonia.

Na América do Sul, o Brasil ocupa uma posição singular. É o maior país do continente em extensão territorial, população e economia, além de ser o único de língua portuguesa em meio a países predominantemente hispanofalantes. Essa diferença linguística, por si só, já cria uma certa distância simbólica entre o Brasil e seus vizinhos. Muitos sul-americanos enxergam o Brasil como uma “ilha cultural” dentro do continente, com referências próprias e, por vezes, pouco integrada ao restante da região.

Apesar disso, há também uma percepção de familiaridade. Elementos como a paixão pelo futebol, a valorização da música, a importância da família e a convivência com desigualdades sociais aproximam o Brasil de países como Argentina, Colômbia, Peru e Chile. Ainda assim, a imagem do brasileiro frequentemente é associada a estereótipos bastante difundidos: alegria constante, hospitalidade, sensualidade e informalidade. Esses traços são vistos de maneira ambivalente — ora como qualidades positivas, ora como sinais de falta de seriedade ou disciplina.

Entre os argentinos, por exemplo, existe uma relação histórica de rivalidade e admiração com o Brasil. No campo esportivo, especialmente no futebol, a competição é intensa e alimenta narrativas nacionalistas. Ao mesmo tempo, muitos argentinos reconhecem o Brasil como uma potência cultural e econômica, ainda que frequentemente critiquem o que percebem como certo “excesso de autoconfiança” dos brasileiros. Há também a ideia de que o Brasil é mais voltado para si mesmo, menos interessado em integração regional do que seus vizinhos hispânicos.

Nos países andinos, como Peru e Bolívia, o Brasil é muitas vezes visto como um gigante distante, cuja influência econômica é significativa, mas nem sempre benéfica. Empresas brasileiras que atuam em infraestrutura, energia e mineração geram empregos, mas também são alvo de críticas relacionadas a impactos ambientais e práticas corporativas. Assim, a imagem do Brasil pode oscilar entre parceiro estratégico e potência dominante.

Já em países menores, como Paraguai e Uruguai, a relação tende a ser mais próxima, porém marcada por assimetrias. No Paraguai, por exemplo, a presença de brasileiros — especialmente agricultores — é significativa, o que gera tanto intercâmbio cultural quanto tensões sociais. Os brasileiros podem ser vistos como trabalhadores e empreendedores, mas também como invasores ou exploradores, dependendo da perspectiva. No Uruguai, a imagem costuma ser mais positiva, com destaque para o turismo e a convivência relativamente harmoniosa entre as populações.

De modo geral, os brasileiros são percebidos na América do Sul como pessoas calorosas, abertas e sociáveis. Essa reputação favorece o turismo e as relações interpessoais, mas também pode levar à subestimação da complexidade da sociedade brasileira. O país é frequentemente reduzido a imagens de carnaval, futebol e praias, o que obscurece sua diversidade cultural, seus desafios estruturais e sua produção intelectual.

Quando se trata de Portugal, a relação é ainda mais carregada de história e simbolismo. Afinal, foi a colonização portuguesa que deu origem ao Brasil enquanto nação. Esse passado comum cria um vínculo linguístico e cultural profundo, mas também deixa marcas de desigualdade e ressentimento que ainda influenciam as percepções mútuas.

Para muitos portugueses, o Brasil é visto com uma mistura de nostalgia, curiosidade e, por vezes, condescendência. Existe um certo orgulho pelo fato de o Brasil ser o maior país de língua portuguesa do mundo, mas também há quem enxergue os brasileiros como excessivamente informais ou pouco rigorosos em comparação com os padrões europeus. Essa visão pode ser reforçada por diferenças no uso da língua, nos costumes e na organização social.

Por outro lado, a cultura brasileira exerce forte influência em Portugal. A música, as novelas, o humor e até o modo de falar dos brasileiros são amplamente consumidos e apreciados. Muitos portugueses associam o Brasil a criatividade, alegria e espontaneidade, características que contrastam com uma autoimagem portuguesa mais reservada. Nesse sentido, o Brasil pode ser visto como uma versão mais vibrante e expansiva da própria herança cultural portuguesa.

Nos últimos anos, a imigração brasileira para Portugal tem contribuído para transformar essas percepções. Com o aumento do número de brasileiros vivendo, estudando e trabalhando em cidades portuguesas, o contato direto tem revelado a diversidade do Brasil, indo além dos estereótipos. Ainda assim, surgem também tensões, especialmente em contextos de mercado de trabalho e integração social. Alguns brasileiros relatam experiências de preconceito ou discriminação, enquanto certos setores da sociedade portuguesa expressam preocupações com a concorrência e a adaptação cultural.

É importante notar que as percepções não são estáticas. Elas evoluem conforme mudam as relações políticas, econômicas e sociais. O crescimento econômico do Brasil em determinados períodos, por exemplo, aumentou seu prestígio internacional e regional, enquanto crises políticas e econômicas podem afetar negativamente sua imagem. Da mesma forma, o comportamento de turistas brasileiros no exterior pode influenciar a forma como a população local os enxerga, tanto positiva quanto negativamente.

Outro aspecto relevante é o papel da mídia na construção dessas imagens. Filmes, séries, notícias e redes sociais contribuem para reforçar ou desafiar estereótipos. A exportação de produtos culturais brasileiros ajuda a difundir uma imagem específica do país, muitas vezes centrada no entretenimento e na emoção, mas nem sempre representativa de sua complexidade.

Em síntese, o Brasil e os brasileiros são vistos por seus vizinhos sul-americanos e pelos portugueses de maneira ambivalente e multifacetada. Há admiração por sua cultura vibrante, sua dimensão continental e sua capacidade de influenciar a região. Ao mesmo tempo, persistem estereótipos e críticas relacionadas à informalidade, à desigualdade e à percepção de isolamento cultural. No caso de Portugal, a relação é ainda mais densa, marcada por laços históricos profundos que geram tanto proximidade quanto tensões.

Compreender essas percepções é fundamental para fortalecer o diálogo intercultural e promover relações mais equilibradas e respeitosas. Ao reconhecer tanto os pontos de convergência quanto as diferenças, torna-se possível construir uma imagem mais realista e plural do Brasil no cenário internacional. Afinal, nenhuma nação pode ser reduzida a estereótipos simplistas — e o Brasil, com sua imensa diversidade, é um exemplo claro disso.

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Brasil e Argentina: a importância do diálogo intercultural 🇧🇷🇦🇷

Bem, o elefante na sala não está mais escondido e cada vez mais brasileiros estão reagindo contra os turistas da vizinha Argentina — não contra todos, mas contra a pegada ecológica deixada por alguns deles.

As reações contra turistas e a cultura argentina no Brasil estão aumentando. Muitos veem os turistas argentinos como mesquinhos e avarentos, rudes, racistas e desrespeitosos com os brasileiros e a cultura brasileira: jogando lixo nas praias, saindo de restaurantes sem pagar a conta, chamando pessoas de pele escura de “macacos”, não se esforçando para falar nem mesmo as palavras mais simples em português e esperando que todos entendam seu espanhol. 

A intensificação de reações negativas contra turistas argentinos no Brasil é um fenômeno que precisa ser analisado com cuidado, nuance e senso crítico. Embora relatos de comportamentos inadequados existam — como em qualquer fluxo turístico internacional — a generalização dessas atitudes para um grupo inteiro levanta questões importantes sobre percepção, preconceito, dinâmica cultural e o papel das redes sociais na amplificação de conflitos.

O turismo entre Brasil e Argentina sempre foi intenso. A proximidade geográfica, os laços históricos e as diferenças culturais relativamente acessíveis fazem com que brasileiros e argentinos viajem frequentemente entre si. Cidades como Florianópolis, Rio de Janeiro e destinos do Nordeste recebem, há décadas, um número significativo de visitantes argentinos, especialmente durante o verão. Esse intercâmbio, em muitos casos, gera benefícios econômicos importantes, movimentando setores como hotelaria, alimentação e comércio local.

No entanto, à medida que o turismo cresce, também aumentam as tensões. Parte da população local passa a perceber comportamentos que considera desrespeitosos ou inadequados. Reclamações comuns incluem falta de cuidado com espaços públicos, dificuldades de comunicação, atitudes consideradas arrogantes e, em casos mais graves, episódios de discriminação racial ou conflitos em estabelecimentos comerciais.

É essencial, porém, separar três níveis diferentes dessa discussão: comportamentos individuais reais, percepções culturais e construções coletivas amplificadas.

Primeiramente, comportamentos inadequados existem em qualquer grupo humano. Há turistas brasileiros que se comportam mal no exterior, assim como há argentinos, europeus ou norte-americanos que cometem erros ou abusos quando viajam. O turismo, por natureza, coloca pessoas fora de seu contexto habitual, o que pode levar a atitudes menos responsáveis — seja por desconhecimento das normas locais, seja por sensação de anonimato ou impunidade.

Casos como jogar lixo na praia, não respeitar regras de convivência ou criar conflitos em restaurantes são, sem dúvida, problemáticos. Mas é fundamental evitar que episódios pontuais sejam usados como prova de um suposto “caráter nacional”. Generalizações desse tipo são não apenas injustas, mas também perigosas, pois alimentam preconceitos e tensões sociais.

O segundo nível envolve diferenças culturais e de comunicação. Brasileiros e argentinos, apesar da proximidade, possuem estilos distintos de interação. A forma de falar, o tom de voz, a linguagem corporal e até a maneira de lidar com serviços podem ser interpretados de formas diferentes. O que para um argentino pode ser uma comunicação direta e normal, para um brasileiro pode soar como rudeza. Da mesma forma, a informalidade brasileira pode ser vista como falta de profissionalismo por visitantes estrangeiros.

A questão da língua também é relevante. Muitos argentinos não falam português, assim como muitos brasileiros não falam espanhol. Embora exista uma certa intercompreensão entre os idiomas, ela não é automática. A expectativa de que o outro se adapte pode gerar frustração de ambos os lados. Quando essa frustração se acumula, ela pode ser interpretada como falta de respeito, quando, na realidade, trata-se de uma barreira linguística comum em contextos turísticos.

O terceiro nível — e talvez o mais importante — é a construção coletiva dessas percepções. Em tempos de redes sociais, relatos individuais ganham grande visibilidade e, muitas vezes, são apresentados de forma emocional ou sensacionalista. Um vídeo de um turista agindo mal pode ser compartilhado milhares de vezes, acompanhado de comentários que reforçam estereótipos negativos. Aos poucos, cria-se uma narrativa generalizada que transforma exceções em regra.

Esse processo é conhecido em psicologia social como viés de confirmação: as pessoas tendem a dar mais atenção a informações que confirmam crenças pré-existentes. Assim, uma vez estabelecida a ideia de que “turistas argentinos são desrespeitosos”, qualquer episódio negativo passa a ser interpretado como prova disso, enquanto experiências positivas são ignoradas ou minimizadas.

Além disso, há fatores históricos e simbólicos que influenciam essas percepções. A rivalidade entre Brasil e Argentina, especialmente no futebol, contribui para uma relação ambígua, marcada tanto por proximidade quanto por competição. Estereótipos mútuos existem há décadas e, em momentos de tensão, podem ressurgir com força.

Outro ponto delicado envolve acusações de racismo. Casos de insultos raciais são extremamente graves e não podem ser relativizados. Se ocorrerem, devem ser tratados com seriedade pelas autoridades e pela sociedade. No entanto, também é importante evitar que esses episódios sejam automaticamente atribuídos a uma nacionalidade inteira. O racismo é um problema estrutural presente em muitos países, inclusive no Brasil, e não pode ser reduzido a uma característica de um povo específico.

Ao mesmo tempo, é compreensível que a população local reaja quando sente que sua cultura, seu espaço ou sua dignidade estão sendo desrespeitados. O turismo sustentável depende de uma relação equilibrada entre visitantes e comunidades anfitriãs. Quando esse equilíbrio é rompido, surgem conflitos.

A solução para esse tipo de problema não está em hostilidade ou generalização, mas em educação, diálogo e políticas públicas adequadas. Campanhas de conscientização para turistas podem ajudar a comunicar normas básicas de convivência, respeito ambiental e sensibilidade cultural. Da mesma forma, iniciativas que promovam o aprendizado básico de língua — tanto para visitantes quanto para profissionais do setor turístico — podem reduzir atritos.

Empresas do setor de turismo também têm um papel importante. Hotéis, restaurantes e operadores podem fornecer informações claras sobre regras e expectativas, além de treinar suas equipes para lidar com diferenças culturais de forma profissional e empática.

Outro caminho é valorizar experiências positivas. Muitos brasileiros têm interações excelentes com turistas argentinos, marcadas por amizade, troca cultural e respeito mútuo. Dar visibilidade a essas histórias ajuda a equilibrar a narrativa e evitar que o debate seja dominado apenas por episódios negativos.

Também é fundamental refletir sobre como reagimos a comportamentos inadequados. Criticar atitudes específicas é legítimo; transformar essas críticas em ataques a uma nacionalidade inteira não é. Quando isso acontece, o problema deixa de ser o comportamento do turista e passa a ser o preconceito de quem generaliza.

Em última análise, o fenômeno descrito não é exclusivo da relação entre brasileiros e argentinos. Em várias partes do mundo, destinos turísticos enfrentam tensões semelhantes. Cidades europeias reclamam de turistas que não respeitam normas locais; países asiáticos enfrentam desafios com visitantes estrangeiros; e até dentro do próprio Brasil há conflitos entre turistas de diferentes regiões.

Isso sugere que a questão é mais ampla: trata-se de como sociedades lidam com o turismo em larga escala, com a diversidade cultural e com a convivência entre diferentes. O desafio é construir uma cultura de respeito mútuo, na qual tanto visitantes quanto anfitriões reconheçam suas responsabilidades.

Portanto, ao analisar o aumento de reações negativas contra turistas argentinos no Brasil, é importante evitar simplificações. Existem, sim, problemas reais que precisam ser enfrentados. Mas também existem exageros, generalizações e narrativas distorcidas que podem agravar o conflito.

Uma abordagem equilibrada exige reconhecer comportamentos inadequados quando eles ocorrem, responsabilizar indivíduos por suas ações e, ao mesmo tempo, resistir à tentação de transformar esses casos em estigmas coletivos. Afinal, o turismo, quando bem conduzido, é uma oportunidade de aproximação entre culturas — e não de afastamento.

Se há algo a ser aprendido com essa situação, é a importância do diálogo intercultural. Com mais compreensão, comunicação e responsabilidade compartilhada, é possível reduzir tensões e transformar o encontro entre brasileiros e argentinos em algo mais positivo, enriquecedor e respeitoso para todos os envolvidos.

— Adam Donaldson Powell 

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Com um histórico político tão complexo, Portugal e Brasil talvez nunca cheguem a um acordo pleno. Concordar em discordar é o caminho mais harmonioso a seguir.

Digo o mesmo sobre os conflitos culturais entre Argentina e Brasil, mas o respeito mútuo pelas leis e costumes de cada país é um bom começo.

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entre nós, meio-irmãos 🇧🇷🇵🇹

Nas vielas de Alfama, sob roupa nos varais,
ecoavam dois sotaques, irmãos e rivais.
Num café de azulejos gastos pelo sal,
um lisboeta murmurava:
— Isto já não é Portugal.

Do outro lado da mesa, um brasileiro cansado,
com diploma na mochila e aluguel atrasado,
respondia num riso meio torto, meio feroz:
— E vocês acham que foram santos antes de nós?

As palavras tropeçavam no mesmo idioma,
mas cada sílaba parecia vir de outro bioma.
“Autocarro”, “ônibus”, “fixe”, “legal”,
a língua era ponte —
e também tribunal.

Os portugueses, de semblante contido,
olhavam os prédios vendidos, o bairro partido.
As rendas subiam como maré sem cais,
e muitos culpavam os recém-chegados demais.
— Os senhorios preferem estrangeiros,
pagam mais, vivem seis num quarto inteiro.

Havia raiva nos elétricos lotados,
nos anúncios de quartos improvisados,
na saudade de um país que mudava depressa
entre turistas, startups e promessa.

E entre alguns nacionalistas portugueses
crescia um orgulho de velhas altivezes:
— O Brasil fala nossa língua deformada.
— Lisboa virou samba, já não vale nada.

Mas havia também brasileiros inflamados,
filhos de metrópoles e sonhos frustrados,
que viam os portugueses como frios ancestrais,
presos à burocracia e aos costumes medievais.

— São arrogantes.
— Teimosos.
— Racistas às vezes.
diziam nas mesas de bares e redes.

E quando o sangue fervia na discussão,
vinha o bordão em tom de provocação:
— Devolvam nosso ouro!

Os portugueses reviravam os olhos no instante,
como quem já ouvira aquilo mil vezes antes.
— Lá vêm eles outra vez com essa história…
mas no fundo sentiam o peso da memória.

Porque havia um fantasma entre os dois continentes,
feito de caravelas, engenhos e correntes.
Portugal dera nome, língua e cruz ao Brasil,
mas também deixara cicatrizes de um passado hostil.

O Atlântico jamais apagou completamente
o ressentimento herdado silenciosamente.
Ainda assim, curiosamente,
havia afeto escondido sob cada ofensa ardente.

Portugal via o Brasil com espanto e ternura:
terra excessiva, musical, sem moldura.
Um primo barulhento que dança na tragédia
e transforma tristeza em comédia.

O Brasil via Portugal como um espelho antigo,
um pai pequeno, nostálgico e rígido.
Uma nação de ruas estreitas e fala baixa,
onde a saudade parece morar em cada faixa.

Nas padarias, tocava música brasileira.
Nas TVs, novelas cruzavam a fronteira.
Lisboa cantava sambas sem perceber
que parte de si aprendera a viver
na voz do outro lado do mar.

E apesar das farpas, da desconfiança,
das crises, do aluguel e da intolerância,
existia um pacto secreto, emocional,
selado não na política —
mas no futebol internacional.

Quando Portugal jogava contra a França,
muitos brasileiros torciam em esperança.
Quando o Brasil enfrentava a Inglaterra ou a Espanha,
portugueses vibravam em cada façanha.

Mas bastava surgir Brasil contra Portugal
para nascer uma guerra sentimental.
Famílias divididas, memes cruéis,
orgulhos históricos vestidos em camisetas e papéis.

Ainda assim, terminado o jogo e a confusão,
sobrava uma estranha sensação:
a de que ambos carregavam a mesma cicatriz,
dois povos separados
pela história que os quis.

Porque entre Lisboa e Rio, Porto e Bahia,
há mais do que disputa ou ironia.
Há um parentesco impossível de romper:
um ressentimento que aprendeu
a também se reconhecer.

— Adam Donaldson Powell

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La discusión 🇦🇷

En el húmedo anochecer de Florianópolis,
donde el mar rodaba plateado bajo gaviotas cansadas,
dos hombres se sentaban separados
en un restaurante angosto
de paredes saladas y mesas inestables.

Uno venía de Rosario, elegante,
con ojos oscuros bajo el ceño fruncido.
El otro era de Porto Alegre, de manos anchas,
hombros quemados por el sol
y sandalias llenas de arena.

Entre ellos flotaban ajo, pescado frito
y el murmullo espumoso de la cerveza.
El televisor sobre la barra
mostraba un viejo partido de Libertadores
con el volumen bajo,
como si el propio lugar temiera problemas.

El argentino observaba a los brasileños reír—
demasiado fuerte, pensaba, demasiado desordenados.
Se interrumpían, se abrazaban,
mezclaban portugués con gestos y carcajadas
como si la gramática fuese opcional.

¿Por qué no aprenden español?
pensó con amargura.
Recorremos medio continente para venir aquí.
Aunque él mismo no sabía pedir sal
sin señalar torpemente el salero.

Al otro lado del salón,
el brasileño lo miraba irritado.
Otro turista argentino con cara de superioridad,
otro hombre capaz de estirar un solo peso
como si fuese palabra sagrada.

Recordaba las playas después de enero—
botellas plásticas en las dunas,
colillas enterradas en la arena.
Recordaba los cantos de fútbol:
“¡Macacos da selva!”
Monos criados en la jungla.

Y recordaba también a los dueños de restaurantes
suspirando frente a cuentas impagas
al final de la noche.

Finalmente sus miradas chocaron.
El aire se tensó.

—Ustedes llegan aquí —dijo el brasileño—
y tratan la isla como si fuera una liquidación.

El argentino resopló.
—Al menos nosotros sabemos comportarnos en público.

—¿Sí? ¿Como reyes que olvidan la billetera?

—Al menos no gritamos en los restaurantes.

—Al menos no insultamos a todo un país.

El dueño se quedó inmóvil detrás de la barra.
Hasta la multitud del televisor
pareció guardar silencio.

El argentino se levantó primero.
El brasileño lo imitó.
Las sillas rasparon el piso
como cuchillos afilándose.

Por un largo segundo
Florianópolis contuvo el aliento.

Entonces apareció la camarera
con dos botellas heladas de cerveza
que nadie había pedido.

—Basta ya —dijo suspirando—.
Ustedes dos parecen un matrimonio.

Unos pescadores al fondo soltaron carcajadas.
La tensión se quebró.

El brasileño sonrió primero.
El argentino intentó no reírse
y fracasó de inmediato.

Pronto estaban bebiendo juntos,
todavía discutiendo, pero más tranquilos.

Sobre fútbol.
Sobre madres.
Sobre inflación.
Sobre cuál asado merecía la eternidad.

El argentino confesó
que siempre había querido aprender portugués
pero que los sonidos nasales le parecían imposibles.

El brasileño admitió
que jamás había conocido a alguien de Buenos Aires
que dejara buenas propinas.

Llegó otra cerveza.
Y otra más.

A medianoche compartían cigarrillos
bajo el viento húmedo del Atlántico,
llamándose hermano,
insultándose ya con cariño,
como hacen los amigos antiguos.

Y años después, cada vez que se reencontraban—
en São Paulo, en Córdoba,
o en algún kiosco perdido frente al mar—
contaban la historia entre risas:

cómo el odio se había disuelto
no por la política,
ni por la historia,
ni por el fútbol,

sino por cerveza fría,
pescado frito
y el extraño milagro
de finalmente sentarse en la misma mesa.


A discussão 🇧🇷

No entardecer úmido de Florianópolis,
onde o mar rolava prateado sob gaivotas cansadas,
dois homens estavam sentados separados
num restaurante pequeno,
de paredes salgadas e mesas bambas.

Um vinha de Rosário, elegante,
olhos escuros sob a testa franzida.
O outro era de Porto Alegre, de mãos largas,
ombros queimados de sol
e sandálias cheias de areia.

Entre eles flutuavam cheiro de alho, peixe frito
e o murmúrio espumante da cerveja.
A televisão acima do balcão
passava um velho jogo da Libertadores
com o volume baixo,
como se o próprio lugar temesse confusão.

O argentino observava os brasileiros rindo—
alto demais, pensava ele, desorganizados demais.
Interrompiam uns aos outros, se abraçavam,
misturavam português com gestos e gargalhadas
como se gramática fosse opcional.

Por que eles não aprendem espanhol?
pensou com amargura.
A gente atravessa meio continente pra vir até aqui.
Embora ele mesmo não soubesse pedir sal
sem apontar desajeitadamente para o saleiro.

Do outro lado do salão,
o brasileiro o encarava irritado.
Mais um turista argentino com ar de superioridade,
mais um sujeito capaz de esticar um único peso
como se fosse escritura sagrada.

Ele lembrava das praias depois de janeiro—
garrafas plásticas nas dunas,
bitucas enterradas na areia.
Lembrava dos cantos de futebol:
“Macacos da selva!”
Macacos criados na floresta.

E lembrava também dos donos de restaurante
suspirando diante de contas não pagas
no fim da noite.

Por fim os olhares se cruzaram.
O ar ficou tenso.

—Vocês chegam aqui —disse o brasileiro—
e tratam a ilha como se fosse liquidação.

O argentino bufou.
—Pelo menos nós sabemos nos comportar em público.

—Ah, é? Como reis que esquecem a carteira?

—Pelo menos não gritamos em restaurante.

—Pelo menos não insultamos um país inteiro.

O dono do lugar congelou atrás do balcão.
Até a torcida na televisão
pareceu ficar em silêncio.

O argentino levantou primeiro.
O brasileiro fez o mesmo.
As cadeiras arranharam o chão
como facas sendo afiadas.

Por um longo segundo
Florianópolis prendeu a respiração.

Então surgiu a garçonete
com duas garrafas geladas de cerveja
que ninguém tinha pedido.

—Chega disso —disse ela, suspirando—.
Vocês dois parecem um casal brigando.

Alguns pescadores no fundo deram risada.
A tensão se quebrou.

O brasileiro sorriu primeiro.
O argentino tentou não rir
e fracassou imediatamente.

Logo estavam bebendo juntos,
ainda discutindo, mas mais leves.

Sobre futebol.
Sobre mães.
Sobre inflação.
Sobre qual churrasco merecia a eternidade.

O argentino confessou
que sempre quis aprender português,
mas achava impossíveis aqueles sons nasais.

O brasileiro admitiu
que nunca tinha conhecido alguém de Buenos Aires
que deixasse boa gorjeta.

Veio outra cerveja.
E mais outra.

À meia-noite dividiam cigarros
sob o vento úmido do Atlântico,
chamando um ao outro de hermano,
xingando-se já com carinho,
como velhos amigos fazem.

E anos depois, sempre que se reencontravam—
em São Paulo, em Córdoba,
ou em algum quiosque perdido à beira-mar—
contavam a história rindo:

como o ódio tinha se dissolvido
não pela política,
nem pela história,
nem pelo futebol,

mas por cerveja gelada,
peixe frito
e o estranho milagre
de finalmente sentarem à mesma mesa.

— Adam Donaldson Powell 

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Publiquei alguns vídeos para ilustrar por que alguns brasileiros se ofendem com comentários racistas, comportamentos rudes e lixo em suas praias tão apreciadas. Embora os turistas argentinos não sejam os únicos culpados e nem todos os argentinos exibam esse comportamento, tornou-se um problema social e cultural que precisa de atenção (na forma de soluções legais e políticas). Selecionei vídeos em inglês para que os falantes de espanhol possam entender os problemas sob a perspectiva de seus vizinhos brasileiros.

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Crowd of people on a busy beach with colorful umbrellas and scattered trash on sand

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