Mudanças em a percepção do homem comum

Na leitura de Erich Auerbach, os romances do Renascimento marcam uma transformação decisiva na apresentação das personagens. Em contraste com a literatura medieval, dominada por figuras tipificadas e hierarquias rígidas, o romance renascentista passa a retratar indivíduos mais concretos, históricos e socialmente situados. As personagens ganham profundidade psicológica, contradições internas e uma ligação mais direta com a vida cotidiana. Auerbach destaca que essa mudança reflete um novo interesse pelo homem comum, pela experiência terrena e pela diversidade dos contextos sociais, inaugurando uma forma de realismo que influenciaria profundamente o desenvolvimento posterior do romance europeu. 

Mudanças em a percepção do homem comum

Desde o início do Renascimento, a percepção do homem comum passou por mudanças profundas. Na Idade Média, o indivíduo era visto sobretudo como parte de uma ordem divina e hierárquica, com pouca ênfase na experiência pessoal. O Renascimento rompeu gradualmente com essa visão ao valorizar o humanismo, colocando o ser humano, sua razão, emoções e potencial criativo no centro da reflexão. O homem comum começou a ser percebido como sujeito de dignidade própria, capaz de pensar, escolher e agir no mundo.

Essa mudança transformou a literatura de forma decisiva. Os autores passaram a explorar a interioridade, os conflitos morais, os sentimentos e a vida cotidiana, não apenas feitos heroicos ou temas religiosos. Surgiram personagens mais complexos e verossímeis, muitas vezes inspirados em pessoas comuns, e a língua vernácula ganhou espaço em relação ao latim, aproximando a literatura de um público mais amplo.

As Revoluções Americana (1776) e Francesa (1789) aprofundaram essa redefinição do homem comum ao afirmarem os ideais de igualdade, liberdade e cidadania. O indivíduo deixou de ser apenas súdito para se tornar cidadão, portador de direitos políticos e civis. Na literatura, isso reforçou o interesse por vozes populares, pela crítica social e pela representação das classes médias e baixas, consolidando a ideia de que a experiência do homem comum era digna de atenção artística e reflexão histórica.

Aqui tem alguns romances importantes inspirado as transformações na percepção do homem comum; do Renascimento às revoluções modernas:

  • “Dom Quixote” (1605–1615), de Miguel de Cervantes – Marco do romance moderno, apresenta um protagonista não heroico no sentido clássico e explora a tensão entre idealismo e realidade cotidiana.
  • “Robinson Crusoé” (1719), de Daniel Defoe – Valoriza o indivíduo comum, sua racionalidade, trabalho e capacidade de adaptação, refletindo o espírito moderno e burguês.
  • “Pamela” (1740), de Samuel Richardson – Dá voz a uma jovem de origem humilde, enfatizando a moral, a subjetividade e a experiência pessoal.
  • “Tom Jones” (1749), de Henry Fielding – Retrata a sociedade inglesa com personagens de diferentes classes sociais, destacando a complexidade moral do homem comum.
  • “Os Sofrimentos do Jovem Werther” (1774), de Johann Wolfgang von Goethe – Exemplo do romance sentimental, focado na interioridade e nos conflitos emocionais do indivíduo.
  • “Os Miseráveis” (1862), de Victor Hugo – Influenciado diretamente pelos ideais da Revolução Francesa, coloca no centro da narrativa figuras marginalizadas e socialmente oprimidas.
  • “Orgulho e Preconceito” (1813), de Jane Austen – Explora a vida cotidiana e as escolhas morais da classe média, valorizando personagens comuns e suas relações sociais.

Esses romances mostram como a literatura passou a considerar a vida, os dilemas e a dignidade do homem comum como temas centrais.

E agora vamos relacionar isso diretamente ao capítulo 2 de Auerbach em “A Novela no Inicio do Renascimento”.

Protagonistas.

Aqui está um resumo breve do Capítulo 2 — Protagonistas de A Novela no Inicio do Renascimento:

Resumo Essencial: 


No Capítulo 2, Auerbach analisa como, no início do Renascimento italiano e francês, as narrativas em prosa — especialmente as novelas renascentistas — começam a articular protagonistas com maior consciência individual, humanidade e inserção no mundo terreno. Ele destaca que antes (como na literatura medieval vinculada à Bíblia e ao sagrado), as figuras raramente são tratadas como indivíduos complexos auto-determinados; já com a novela renascentista, essa centralidade do indivíduo emerge de forma nova. 

Tendência Temática:

  • A concepção de protagonista passa de figuras idealizadas, aristocráticas ou apenas alegóricas para personagens inseridos em situações sociais, afetivas e mundanas — uma marca inicial do que será a literatura realista moderna. 
  • Essa transição envolve a secularização da narrativa: o foco desloca-se da ordem teológica para a vida cotidiana, paixões humanas e conflitos sociais.  
  • Autores e Textos Citados / Exemplos de Protagonistas:
  • Giovanni Boccaccio, especialmente com O Decameron, onde as personagens exibem desejos, falhas, relações sociais e transformações pessoais, em contraste com os modelos narrativos anteriores centrados no sagrado ou no heroico. 
  • Autores franceses de narrativa em prosa posteriores ou coetâneos (como anônimos que escrevem novelas domésticas), que apresentam protagonistas no ambiente íntimo e familiar, diferenciando-se do moldura social italiana. 
  • Auerbach também dialoga com Dante como figura transicional: sua obra não é diretamente protagonista do romance, mas é vista como um ponto de virada na representação humana e individualizada, abrindo caminho para o realismo narrativo posterior. 

Principais Tendências Observadas no Capítulo:

  1. Maior ênfase na vida mundana e na subjetividade das personagens: protagonistas renascentistas são apresentados como seres humanos com desejos, contradições e decisões próprias. 
  2. Comparação entre tradições italiana e francesa de novela: a moldura social (Itália) versus a moldura doméstica/intimista (França), cada uma configurando diferentes tipos de protagonistas. 
  3. Ruptura com modelos medievais de representação (unidade teológica ou heroicidade clássica) em direção a uma narrativa que dá voz ao “homem terreno”. 

Síntese: O Capítulo 2 traça o perfil dos protagonistas renascentistas como figuras significativas porque representam o início da consciência individual em prosa narrativa, rompendo hierarquias estritas da literatura anterior e abrindo espaço para a literatura moderna. 

1) Mapa de ideias — Capítulo 2: Protagonistas

Eixo central

➡️ Nascimento do protagonista “moderno” na novela renascentista

A) Ruptura com a tradição medieval

  • Personagens medievais:
    • Tipificados, exemplares, subordinados a esquemas morais ou teológicos
    • Pouca interioridade psicológica
  • Mudança renascentista:
    • O protagonista passa a ser indivíduo concreto, situado no mundo histórico e social
    • Ênfase na experiência terrena, não na ordem transcendente

B) Características do novo protagonista

  • Inserção clara em contextos sociais definidos (cidade, classe, profissão, família)
  • Ações guiadas por:
    • Astúcia, desejo, interesse, acaso, paixão
  • Moralidade não absoluta:
    • Personagens podem agir de modo ambíguo sem condenação narrativa direta
  • Vida cotidiana como matéria literária legítima

C) Itália vs. França (comparação recorrente)

  • Itália (Boccaccio):
    • Protagonistas em redes sociais amplas
    • Forte presença da cidade, do comércio, das relações públicas
    • Tom frequentemente irônico e pragmático
  • França:
    • Protagonistas mais ligados ao espaço doméstico e privado
    • Conflitos afetivos e morais mais introspectivos
    • Menor exuberância social que a italiana

D) Autor central

  • Giovanni Boccaccio (Decameron):
    • Modelo decisivo do protagonista renascentista
    • Personagens definidos menos por ideais e mais por situações vividas
    • Narrativa aceita o mundo “como ele é”

E) Importância histórica

  • A novela renascentista antecipa:
    • O realismo moderno
    • O romance centrado no indivíduo comum
  • O protagonista torna-se o lugar onde história, sociedade e psicologia se cruzam

2) Formulações-chave de Auerbach (paráfrases de estudo)

Estas frases não são citações literais, mas condensam ideias recorrentes do capítulo:

  • O protagonista da novela renascentista não representa um valor abstrato, mas uma existência concreta em circunstâncias específicas.
  • A narrativa abandona a exigência de que o personagem seja moralmente exemplar; basta que seja verossímil dentro do mundo social.
  • Em Boccaccio, a dignidade literária da personagem deriva de sua participação ativa na vida terrena, não de sua elevação espiritual.
  • Auerbach vê nesse tipo de protagonista um passo decisivo para a representação séria do homem comum, algo impensável na literatura medieval dominante.
  • A individualidade não se manifesta pela introspecção psicológica profunda, mas pela ação eficaz em situações práticas.

Portugal e Brasil:

De forma sintética, as ideias e tendências narrativas que Auerbach identifica no início do Renascimento chegam tarde e de modo desigual a Portugal e ao Brasil, seguindo ritmos históricos distintos.

1) Em Portugal

📅 Séculos XV–XVI (Renascimento tardio e Humanismo)

  • Portugal recebe o Renascimento literário mais tarde do que a Itália e a França.
  • A novela em prosa não se desenvolve com a mesma força que em Boccaccio.
  • Predominam:
    • Crônica histórica (Fernão Lopes)
    • Prosa moral e didática
    • Teatro vicentino (Gil Vicente)

🔹 Fernão Lopes é decisivo:

  • Introduz personagens históricos tratados com densidade humana, social e psicológica, algo próximo do realismo que Auerbach valoriza.
  • Contudo, ainda não há uma tradição consistente de novela centrada no indivíduo comum.

📅 Século XVI

  • Influência indireta da novela renascentista:
    • Traduções e imitações de textos italianos e espanhóis
  • A prosa de ficção continua subordinada a fins morais ou exemplares
  • O protagonista ainda não é plenamente “moderno” no sentido auerbachiano

📌 Conclusão para Portugal
➡️ As tendências chegam parcialmente no século XVI, mas só amadurecem muito mais tarde, já no século XVIII–XIX, com o romance moderno.

2) No Brasil

📅 Período colonial (séculos XVI–XVIII)

  • Não há recepção direta dessas formas narrativas:
    • A produção literária é:
      • Descritiva (cartas, crônicas)
      • Religiosa ou retórica
  • Ausência quase total de:
    • Novela
    • Romance
    • Protagonista individualizado em prosa ficcional

📌 O modelo de protagonista renascentista não chega ao Brasil colonial.

📅 Século XIX — chegada efetiva

É aqui que as ideias analisadas por Auerbach finalmente se concretizam no Brasil:

  • Com o Romantismo e sobretudo o Realismo:
    • Centralidade do indivíduo
    • Inserção social clara
    • Conflitos psicológicos e morais

🔹 Autores-chave:

  • José de Alencar – individuação ainda idealizada
  • Machado de Assis – plenamente moderno:
    • Protagonistas ambíguos
    • Vida cotidiana
    • Ironia e crítica social
      ➡️ Machado é frequentemente visto como o primeiro autor brasileiro plenamente alinhado ao realismo moderno que Auerbach descreve em sua genealogia.

3) Linha do tempo comparativa (bem resumida)

  • Itália / França: século XIV
  • Portugal: recepção parcial no século XVI
  • Brasil: recepção efetiva apenas no século XIX

Em termos auerbachianos:

Portugal participa tardiamente do processo;
o Brasil participa indiretamente e muito tarde, já na etapa do romance moderno.

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