
MEUS POEMAS EM PORTUGUÊS BRASILEIRO.
I. Entrega ao amor
Chuva no jardim.
Teu nome desata lento
o nó do meu peito
II. Entrega a si mesmo
No espelho partido
abandono finalmente
o rosto que inventei
III. Entrega à vida
O trem não se move.
A neve cai sem pedir
sobre cada ombro
IV. Entrega à morte
Na maré final
até o velho farol
se curva à manhã
— Adam Donaldson Powell
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Esteja aqui agora
Existe um fogo silencioso dentro de mim,
pequeno como uma brasa sob as cinzas do inverno,
e ainda assim fiel.
Ele vigia
quando meu corpo murmura suas traições—
a queixa espessa do sangue,
os alarmes surdos
percorrendo corredores cansados de osso e veia.
Aprendi
que a dor nem sempre é um tirano.
Às vezes ela é apenas uma lanterna
erguida por uma mão trêmula,
avisando suavemente
que esta casa de carne está cansada,
que alguns cômodos ficaram escuros.
Ainda assim—
o fogo permanece.
E quando o corpo se torna barulhento demais,
quando cada pulsação chega carregada
com sua própria profecia,
minha mente se solta
como um pássaro fugindo da fumaça.
Lá,
nos países indomados do pensamento e do sonho,
eu me torno livre.
Eu danço.
Nem sempre com beleza—
às vezes imprudente,
às vezes selvagem no esquecimento,
com os pés descalços arrancando faíscas
de pisos invisíveis.
E amo tanto o instante
que desapareço dentro dele.
Sem passado.
Sem diagnóstico.
Sem alarmes sob as costelas.
Apenas movimento.
Apenas respiração.
Apenas a estranha santidade
de estar vivo por um instante desprotegido.
Esta é a minha glória:
não que eu esteja inteiro,
mas que ainda possa viajar para além da ruptura.
Esta é a minha salvação:
o céu interior que nenhuma doença pode aprisionar,
a porta secreta que se abre sem fim
atrás dos meus olhos.
Então me sento junto ao fogo dentro de mim
e escuto—
não o medo,
não a frágil maquinaria da carne,
mas a voz silenciosa que sussurra:
Esteja aqui agora.
— Adam Donaldson Powell
_________________
A morte da poesia
Cinquenta anos atrás —
quando a poesia ainda era popular —
meu professor de escrita criativa pregava que,
embora a história se repetisse por natureza,
um bom poeta jamais o faz.
Demonstrando especial desaprovação
por “aquela eternamente gaguejante Gertrude Stein”
e atacando os Beats como oportunistas
numa era de modismos, ele alertava
que a morte da poesia
estava se aproximando e que seu desaparecimento
precipitaria a senilidade intelectual.
O velho espirituoso mora numa casa de repouso agora
e mal me reconhece quando o visito.
Ainda assim, nada pode manchar o amor que sinto
quando ele, entusiasmado, me envolve com as mesmas
malditas histórias que ouço há quinze anos,
de novo… e de novo… e de novo.
— Adam Donaldson Powell
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ALEGRIA
Onde buscamos alegria?
No sorriso de uma criança
em sua festa de aniversário?
No rosto de um adolescente orgulhoso
atingindo seu primeiro orgasmo?
Na mente de um pai
quando seu primeiro neto nasce?
Repito…
Onde buscamos alegria?
Nas notícias: que os governos ricos
do Ocidente ensinaram
mais uma dura lição?
Ao ouvir que tudo está sob controle e
que os insurgentes foram presos?
No anúncio de que a economia está melhorando
ou que pagaremos menos impostos?
Repito…
Onde buscamos alegria?
Em nossas belas ruas
cheias de mendigos e ladrões?
Em saber que os pobres do mundo
desfrutam de mais justiça e menos pobreza?
Em trabalhar pela paz e
igualdade em um mundo para todos?
Repito…
Onde buscamos alegria?
— Adam Donaldson Powell
___________________
manual para gringos
1. Familiaridade versus polidez
No Brasil, o abraço chega cedo,
o “você” desfaz o gelo sem segredo.
Mas há respeito no tom da voz,
na escuta calma entre todos nós.
Ser próximo não elimina a gentileza —
cordialidade também é nobreza.
2. Pontualidade
O relógio marca sete em ponto,
mas alguém avisa: “já estou pronto”.
Entre minutos que vêm e vão,
vive flexível a ocasião.
Ainda assim, quem espera merece atenção:
atraso sem aviso pesa no coração.
3. Encontros amorosos
Num café, num samba ou beira-mar,
o olhar costuma primeiro conversar.
Há charme leve no improvisar,
na risada fácil, no jeito de chegar.
Mas respeito é regra em qualquer paixão:
consentimento conduz a dança da mão.
4. Estilo de vestimenta
Chinelo encontra o linho elegante,
o simples pode ser fascinante.
No calor, cores sabem viver,
e o corpo aprende a se mover.
Vestir-se bem, no fundo, talvez,
é combinar conforto e sensatez.
5. Expressão de gratidão
“Obrigado” vem com sorriso aberto,
um gesto pequeno que aproxima o afeto.
Quem recebe ajuda costuma lembrar,
depois retribui num outro lugar.
Porque no Brasil, quase sem perceber,
gentileza é também forma de viver.
— Adam Donaldson Powell
__________________
MEU ESTRANHO… TÃO DOCE
Tão doces
são suas promessas sugeridas.
Meu estranho.
Meu inacessível
momento de paixão.
Você me persuade;
você me rejeita.
Só podemos possuir um ao outro em sonhos fugazes:
ambos tão diferentes
tão totalmente outros
e ainda assim…
tão maravilhosamente
em harmonia.
A fantasia implacável
é mais do que a soma
de suas partes.
Eu te vejo em todos os lugares;
nos passos de estranhos…
nas minhas memórias.
Deslizando da cintura,
lentamente, até os dedos dos pés
e então, com a violência de um flash
de volta para cima, até o topo,
para então
descobrir seu rosto insignificante.
Meu estranho.
Minha paixão.
Meu estranho…
Tão doce.
O relógio marca sete em ponto,
mas alguém avisa: “já estou pronto”.
Entre minutos que vêm e vão,
vive flexível a ocasião.
Ainda assim, quem espera merece atenção:
atraso sem aviso pesa no coração.
— Adam Donaldson Powell
_________________
Encontros amorosos
Num café, num samba ou beira-mar,
o olhar costuma primeiro conversar.
Há charme leve no improvisar,
na risada fácil, no jeito de chegar.
Mas respeito é regra em qualquer paixão:
consentimento conduz a dança da mão.
— Adam Donaldson Powell
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O Gringo e o Apartamento 302
Chegou o gringo com mala e contrato,
sorriso europeu, currículo exato,
pensando que aluguel era matemática:
depósito, assinatura, vida automática.
Viu no anúncio: “apartamento completo”.
Imaginou conforto discreto.
Abriu a porta — silêncio profundo.
Não havia geladeira nem fogão no mundo.
“Mas… onde está a cozinha?” perguntou.
“O espaço está aí”, o corretor respondeu.
“Você instala o resto.”
E sorriu honesto, quase modesto,
como quem explica a chuva ou a gravidade.
O gringo aprendeu uma nova verdade:
no Brasil, “semi-mobiliado”
é conceito filosófico avançado.
Vieram depois as taxas escondidas:
condomínio, IPTU, despesas esquecidas.
O aluguel dobrava sem mudar de nome,
como inflação antiga voltando com fome.
Pediu reparo na infiltração da parede.
O proprietário respondeu sem sede:
“Isso aí já estava quando chove forte.”
“Mas pinga na cama.”
“Faz parte da sorte.”
O gringo falava de direitos,
o dono falava de boletos.
Um citava jurisprudência,
o outro mostrava parcelas vencidas.
Porque o senhorio também sofria:
aposentadoria curta, banco cobrando todo dia,
um apartamento herdado da tia,
e um elevador quebrado fazia poesia
de despesas infinitas.
Então cada parafuso virava guerra,
cada pintura, disputa na terra,
porque despejo demora, processo se arrasta,
e advogado no Brasil nunca custa barato.
O gringo não entendia
como tanta burocracia
podia coexistir
com tanta gambiarra.
Mas aos poucos aprendeu a arte rara
de negociar no corredor,
mandar áudio cordial ao fiador,
aceitar desconto em troca de silêncio,
e discutir vazamento com paciência diplomática.
No fim do contrato, já quase brasileiro,
o gringo pintou parede, trocou chuveiro,
tirou foto até do piso do banheiro.
E quando entregou as chaves finalmente,
o proprietário disse calmamente:
“Você foi um bom inquilino.”
O gringo sorriu cansado.
Era talvez o elogio
mais sincero
que já tinha escutado no país.
— Adam Donaldson Powell
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Este é um trecho do meu romance LGBTQ+ intitulado “O Perseguidor”.
Uma família rica em São Paulo: o nascimento de duas novas personalidades
No início…
Rachel S., de cinco anos, estava sentada em seu quarto, brincando com suas bonecas, quando tudo começou de novo. Ela odiava os gritos, as acusações, as portas batendo e o som de objetos caindo contra as paredes e o chão de madeira. Quase sempre era apenas a voz de sua mãe que ela ouvia – primeiro um choramingo e depois rapidamente se transformando em um grito estridente que fazia Rachel se encolher de medo e a deixava obcecada com o desejo de correr… para bem longe. Seu pai, que devia ter nervos de aço e ouvidos tapados de algodão, simplesmente a deixava desabafar e, por fim, saía de casa impassível e dirigia seu carro – para não voltar antes da noite, quando sua esposa já havia chorado até dormir.
Sem o pai por perto para ouvir esses desabafos horríveis, Rachel inevitavelmente podia esperar uma “visita e inspeção” de sua mãe enlouquecida. Seu humor oscilava constantemente – variando de “meu precioso botão de rosa” a “sua vadiazinha imunda!”. Era a imprevisibilidade dessa torneira emocional que “liga e desliga” que mais assustava Rachel. Esta tarde não foi diferente. Assim que Rachel ouviu o pai partir e, em seguida, o baque subsequente (e consequente) de algum objeto de vidro ou cerâmica se estilhaçando contra a parede, ela instintivamente digitou no chão rangente e se trancou no armário, agachando-se na escuridão na esperança de desaparecer da casa, da mãe e da própria vida. Ela contou os passos da mãe desde o momento em que abriu a porta do quarto de Rachel até o momento em que escancarou a porta do armário, batendo os pés e chutando os sapatos cuidadosamente arrumados no chão à direita de onde Rachel estava agachada.
“Saia daí, mocinha!” gritou a mãe. “Rachel S., saia AGORA MESMO!”
Rachel sempre soube o que a esperava se sua mãe a chamasse de “Rachel S.” em vez de simplesmente “Rachel”. Como um cachorro que havia sido severamente repreendido por seu dono, ela obedientemente e com medo saiu rastejando do armário… com a cabeça baixa.
“O que você está vestindo, sua vadiazinha?! Quantas vezes eu já te disse para NÃO usar seus melhores vestidos de domingo para brincar? Você é o motivo pelo qual seu pai e eu brigamos o tempo todo. Você faz seu papai fazer e pensar coisas ruins, Rachel. Você incentiva o mal nele se arrumando toda e parando por aí… ‘Papai, meu querido papai – posso ter isso; podemos fazer aquilo…?’” E ele é tão apaixonado por você – sua vadiazinha. Ele te leva para lá e para cá, compra isso e aquilo para você… e eu fico de fora, muitas vezes sozinha nesta maldita prisão que é esta casa – tentando desesperadamente transformá-la em um lar. Tire esse maldito vestido! gritou a mãe, finalmente arrancando-o do corpo de Rachel quando esta não conseguiu desabotoá-lo rápido o suficiente. Então, a mãe pegou os pedaços do vestido e se virou para sair pisando duro do quarto quando percebeu que várias bonecas de Rachel estavam sem cabeça, espalhadas do lado de fora da casa de bonecas, junto com algumas xícaras de chá em miniatura. “Rachel S.! O que você fez agora? Por que você arrancou a cabeça dessas lindas bonecas para as quais eu costurei vestidos à mão? Por que você sempre me machuca, Rachel?” “Por quê? Por quê? Por quê?!” Ela agora sacudia a pequena Rachel e gritava a plenos pulmões. Os olhos da mãe estavam vermelhos de tanta raiva e lágrimas, e ela mal conseguia ouvir a resposta de Rachel.
“Eu não fiz isso, mamãe! Juro. Não fui eu”, chorou a menininha mentirosa.
“Não foi você, você diz! Então QUEM foi, Rachel? Quantas vezes eu já te disse para não mentir para mim?!”
“Foi a Emily. Foi a Emily que fez isso, mamãe. Ela estava brava.”
“Quem é Emily, Rachel? Eu não vejo nenhuma Emily aqui. Você vê a Emily, Rachel S.? Olhe ao redor deste quarto… venha – olhe no armário. Onde está a Emily?!”
“Ela sumiu… ela está se escondendo”, respondeu Rachel, agora soluçando incontrolavelmente.
“Você me dá nojo, sua vadiazinha mentirosa! Agora vá lavar o rosto, vista um pijama e se arraste para a cama. Não haverá jantar para você hoje à noite. Você mesma provocou isso, sua raposinha.” E com isso, sua mãe saiu pisando duro do quarto e desapareceu escada abaixo, buscando refúgio na televisão e em uma garrafa de uísque escocês.
Pelo menos a dor de cabeça tinha passado. Verônica – sua “companheira secreta especial” – sempre a deixava com enxaqueca quando desaparecia de repente, irritada. Verônica sempre falava mal da mãe de Rachel. Rachel tentava argumentar com ela, dizendo que sua mãe não conseguia se controlar e sempre fazia o melhor que podia, mas Verônica então começava a chamar Rachel de medrosa e a provocava para fazer coisas que sabiam que sua mãe não gostaria – como se vestir com roupas de domingo, fazer bagunça no quarto tirando o máximo de brinquedos possível e espalhando-os por todo o cômodo, e outras brincadeiras divertidas, mas travessas. Hoje, Verônica tinha trazido uma amiga: Emily.
Emily parecia ainda mais quieta do que Rachel. Ela quase não dizia uma palavra – balançava-se e chupava o dedo, ou balançava-se e se abraçava numa tentativa de se confortar. Rachel pensou: “Ainda bem que a mamãe não viu isso.” Ela sempre ficava muito brava quando Rachel balançava ou chupava o dedo. Felizmente, as duas saíram antes que a mãe de Rachel entrasse no quarto. Rachel sabia como se “bloquear” emocionalmente. Isso tornava tudo mais tolerável.
Mesmo tendo sido mandada para a cama antes do jantar, Rachel não conseguiu dormir antes de ouvir o carro do pai parar novamente na entrada da garagem. Ele subiu silenciosamente os degraus até o segundo andar e fechou a porta do quarto de hóspedes, onde escolhia dormir nessas noites… e em algumas outras também.
— Adam Donaldson Powell
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“Terra do ‘Depende’”
(paródia satírica sobre contradições culturais percebidas por estrangeiros)
No aeroporto o gringo desembarca,
Com filtro solar e teoria pronta na mala,
“É carnaval o ano inteiro?” — pergunta animado,
Enquanto o povo responde: “Calma aí, complicado.”
Na praia tem brilho, biquíni microscópico,
Pose coreografada, bronzeado filosófico,
Mas fala em turismo sexual no jornal da televisão,
E metade do país grita: “Aqui não, meu irmão!”
Refrão:
Brasil é “sim”, Brasil é “não”,
É contradição em alta definição,
Tem lei moderna, moral antiga,
Tem beijo livre e briga na esquina.
É liberal no discurso oficial,
Conservador no almoço de Natal,
Todo mundo julga todo mundo no final,
Mas dança junto no feriado nacional.
Tem indústria pornô exportando “calor tropical”,
Conteúdo legendado pra tarado internacional,
Enquanto o tio da padaria diz com indignação:
“Que absurdo essa falta de tradição!”
Nas novelas, diversidade em horário nobre,
No centro da cidade, bandeira arco-íris cobre,
Mas no ônibus alguém cochicha atravessado,
Como se século XXI fosse pecado.
Na metrópole tem parada gigantesca,
Influencer, drag queen, estética carnavalesca,
Mas no interior o silêncio é mais profundo,
Porque nem todo mundo quer peitar o mundo.
Tem cara machão pagando de valente,
Mas morre de medo da ex independente,
Porque aprendeu que respeito vem no susto
Quando o “amor da vida” vira processo justo.
Refrão:
Brasil é “sim”, Brasil é “não”,
É contradição em alta definição,
Tem lei moderna, moral antiga,
Tem beijo livre e briga na esquina.
É liberal no discurso oficial,
Conservador no almoço de Natal,
Todo mundo julga todo mundo no final,
Mas dança junto no feriado nacional.
O estrangeiro tenta fazer estatística,
Mas aqui até opinião é probabilística,
Num bairro é vanguarda, no outro tradição,
Cada esquina muda a constituição.
Tem pastor no TikTok fazendo trend sensual,
Tem militante e reaça no mesmo bloco de carnaval,
E no fim da madrugada, depois da discussão,
Todo mundo canta pagode na mesma direção.
Final:
Brasil não cabe em tese simplificada,
Nem em manchete importada,
É país onde o “depende” virou filosofia,
E a incoerência… patrimônio da alegria.
— Adam Donaldson Powell
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entre nós, meio-irmãos
Nas vielas de Alfama, sob roupa nos varais,
ecoavam dois sotaques, irmãos e rivais.
Num café de azulejos gastos pelo sal,
um lisboeta murmurava:
— Isto já não é Portugal.
Do outro lado da mesa, um brasileiro cansado,
com diploma na mochila e aluguel atrasado,
respondia num riso meio torto, meio feroz:
— E vocês acham que foram santos antes de nós?
As palavras tropeçavam no mesmo idioma,
mas cada sílaba parecia vir de outro bioma.
“Autocarro”, “ônibus”, “fixe”, “legal”,
a língua era ponte —
e também tribunal.
Os portugueses, de semblante contido,
olhavam os prédios vendidos, o bairro partido.
As rendas subiam como maré sem cais,
e muitos culpavam os recém-chegados demais.
— Os senhorios preferem estrangeiros,
pagam mais, vivem seis num quarto inteiro.
Havia raiva nos elétricos lotados,
nos anúncios de quartos improvisados,
na saudade de um país que mudava depressa
entre turistas, startups e promessa.
E entre alguns nacionalistas portugueses
crescia um orgulho de velhas altivezes:
— O Brasil fala nossa língua deformada.
— Lisboa virou samba, já não vale nada.
Mas havia também brasileiros inflamados,
filhos de metrópoles e sonhos frustrados,
que viam os portugueses como frios ancestrais,
presos à burocracia e aos costumes medievais.
— São arrogantes.
— Teimosos.
— Racistas às vezes.
diziam nas mesas de bares e redes.
E quando o sangue fervia na discussão,
vinha o bordão em tom de provocação:
— Devolvam nosso ouro!
Os portugueses reviravam os olhos no instante,
como quem já ouvira aquilo mil vezes antes.
— Lá vêm eles outra vez com essa história…
mas no fundo sentiam o peso da memória.
Porque havia um fantasma entre os dois continentes,
feito de caravelas, engenhos e correntes.
Portugal dera nome, língua e cruz ao Brasil,
mas também deixara cicatrizes de um passado hostil.
O Atlântico jamais apagou completamente
o ressentimento herdado silenciosamente.
Ainda assim, curiosamente,
havia afeto escondido sob cada ofensa ardente.
Portugal via o Brasil com espanto e ternura:
terra excessiva, musical, sem moldura.
Um primo barulhento que dança na tragédia
e transforma tristeza em comédia.
O Brasil via Portugal como um espelho antigo,
um pai pequeno, nostálgico e rígido.
Uma nação de ruas estreitas e fala baixa,
onde a saudade parece morar em cada faixa.
Nas padarias, tocava música brasileira.
Nas TVs, novelas cruzavam a fronteira.
Lisboa cantava sambas sem perceber
que parte de si aprendera a viver
na voz do outro lado do mar.
E apesar das farpas, da desconfiança,
das crises, do aluguel e da intolerância,
existia um pacto secreto, emocional,
selado não na política —
mas no futebol internacional.
Quando Portugal jogava contra a França,
muitos brasileiros torciam em esperança.
Quando o Brasil enfrentava a Inglaterra ou a Espanha,
portugueses vibravam em cada façanha.
Mas bastava surgir Brasil contra Portugal
para nascer uma guerra sentimental.
Famílias divididas, memes cruéis,
orgulhos históricos vestidos em camisetas e papéis.
Ainda assim, terminado o jogo e a confusão,
sobrava uma estranha sensação:
a de que ambos carregavam a mesma cicatriz,
dois povos separados
pela história que os quis.
Porque entre Lisboa e Rio, Porto e Bahia,
há mais do que disputa ou ironia.
Há um parentesco impossível de romper:
um ressentimento que aprendeu
a também se reconhecer.
— Adam Donaldson Powell
__________________
a discussão
No entardecer úmido de Florianópolis,
onde o mar rolava prateado sob gaivotas cansadas,
dois homens estavam sentados separados
num restaurante pequeno,
de paredes salgadas e mesas bambas.
Um vinha de Rosário, elegante,
olhos escuros sob a testa franzida.
O outro era de Porto Alegre, de mãos largas,
ombros queimados de sol
e sandálias cheias de areia.
Entre eles flutuavam cheiro de alho, peixe frito
e o murmúrio espumante da cerveja.
A televisão acima do balcão
passava um velho jogo da Libertadores
com o volume baixo,
como se o próprio lugar temesse confusão.
O argentino observava os brasileiros rindo—
alto demais, pensava ele, desorganizados demais.
Interrompiam uns aos outros, se abraçavam,
misturavam português com gestos e gargalhadas
como se gramática fosse opcional.
Por que eles não aprendem espanhol?
pensou com amargura.
A gente atravessa meio continente pra vir até aqui.
Embora ele mesmo não soubesse pedir sal
sem apontar desajeitadamente para o saleiro.
Do outro lado do salão,
o brasileiro o encarava irritado.
Mais um turista argentino com ar de superioridade,
mais um sujeito capaz de esticar um único peso
como se fosse escritura sagrada.
Ele lembrava das praias depois de janeiro—
garrafas plásticas nas dunas,
bitucas enterradas na areia.
Lembrava dos cantos de futebol:
“Macacos da selva!”
Macacos criados na floresta.
E lembrava também dos donos de restaurante
suspirando diante de contas não pagas
no fim da noite.
Por fim os olhares se cruzaram.
O ar ficou tenso.
—Vocês chegam aqui —disse o brasileiro—
e tratam a ilha como se fosse liquidação.
O argentino bufou.
—Pelo menos nós sabemos nos comportar em público.
—Ah, é? Como reis que esquecem a carteira?
—Pelo menos não gritamos em restaurante.
—Pelo menos não insultamos um país inteiro.
O dono do lugar congelou atrás do balcão.
Até a torcida na televisão
pareceu ficar em silêncio.
O argentino levantou primeiro.
O brasileiro fez o mesmo.
As cadeiras arranharam o chão
como facas sendo afiadas.
Por um longo segundo
Florianópolis prendeu a respiração.
Então surgiu a garçonete
com duas garrafas geladas de cerveja
que ninguém tinha pedido.
—Chega disso —disse ela, suspirando—.
Vocês dois parecem um casal brigando.
Alguns pescadores no fundo deram risada.
A tensão se quebrou.
O brasileiro sorriu primeiro.
O argentino tentou não rir
e fracassou imediatamente.
Logo estavam bebendo juntos,
ainda discutindo, mas mais leves.
Sobre futebol.
Sobre mães.
Sobre inflação.
Sobre qual churrasco merecia a eternidade.
O argentino confessou
que sempre quis aprender português,
mas achava impossíveis aqueles sons nasais.
O brasileiro admitiu
que nunca tinha conhecido alguém de Buenos Aires
que deixasse boa gorjeta.
Veio outra cerveja.
E mais outra.
À meia-noite dividiam cigarros
sob o vento úmido do Atlântico,
chamando um ao outro de hermano,
xingando-se já com carinho,
como velhos amigos fazem.
E anos depois, sempre que se reencontravam—
em São Paulo, em Córdoba,
ou em algum quiosque perdido à beira-mar—
contavam a história rindo:
como o ódio tinha se dissolvido
não pela política,
nem pela história,
nem pelo futebol,
mas por cerveja gelada,
peixe frito
e o estranho milagre
de finalmente sentarem à mesma mesa.
— Adam Donaldson Powell
__________________
“Passeando com o coágulo”
Ele passeia com o coágulo ao amanhecer
como outros homens passeiam com beagles, vira-latas, retrievers cansados
por bairros cheirando a água da chuva, mijo, vapor de padaria, ônibus a diesel tossindo fantasmas —
as mesmas três horas todos os dias,
o mesmo quarteirão rachado orbitando seus sapatos
como um rosário feito de artérias ruins.
Os médicos deram de ombros sob a luz fluorescente,
seus bisturis de repente humildes,
seus diplomas se curvando para dentro como folhas assustadas.
Não dá para cortar isso fora.
Não dá para dissolver.
Não dá para prometer o amanhã.
Então o velho desgraçado caminha.
Três vezes por dia
ele leva seu coágulo para tomar ar,
deixa que ele estique suas perninhas assassinas
pelos túneis do seu corpo
enquanto sua bengala marca o tempo na calçada —
clac, arrasto, clac —
como um baterista cego de jazz recusando a aposentadoria.
A bengala não é rendição.
É uma terceira perna,
um tripé para impérios em colapso,
um santo cético ao lado dele
caso os nervos em suas panturrilhas
de repente comecem a fazer breakdance com facas.
As pessoas notam ele.
Claro que notam.
O homem do ritual.
O espantalho grisalho circulando o mesmo quarteirão
como se estivesse guardando alguma coisa invisível.
As crianças fazem perguntas.
Os donos de cachorro inventam biografias.
Viúvas apertam os olhos sob a luz do mercado
pensando:
Conheço esse rosto de algum lugar.
E sim —
trinta anos atrás suas maçãs do rosto estampavam cartazes,
sua raiva marchava através de megafones,
seu corpo era uma estatística com batimentos cardíacos.
Ativista da AIDS.
Sobrevivente milagroso.
Inconveniência para o governo.
O belo garoto condenado
que teimosamente se recusou a seguir o roteiro.
Mas ele não pensa mais em AIDS.
Nem em linfoma.
Nem em neuropatia.
Nem em hemogramas, lesões, exames, prognósticos, síndromes —
todas aquelas maldições em latim grampeadas ao seu prontuário
como grafite burocrático.
Não.
Agora ele combate a dor com poemas.
Não necessariamente bons poemas —
apenas altos o bastante dentro do seu crânio
para afogar os gritos elétricos em suas pernas.
Poemas funcionam melhor do que uísque agora,
melhor do que comprimidos que o deixam flutuando meio morto
no sofá às quatro da manhã
se perguntando se o sono é ensaio
ou o evento principal.
Então ele escreve versos na cabeça enquanto anda.
Versos Beat selvagens.
Versos de Ginsberg com quadris rachados.
Versos de Kerouac carregando organizadores de remédio.
Santo santo santo colesterol!
Santo jazz arterial!
Santo tremor e terror e recibos da farmácia do Walmart!
À noite o esgotamento finalmente o golpeia até a inconsciência,
misericordioso como chuva sobre o telhado de um cortiço.
Ele dorme porque caminhou para longe do medo
por mais um dia.
E a manhã —
impossivelmente, rudemente —
volta outra vez.
Então o velho tolo se levanta,
veste seu casaco,
pega sua bengala,
prende a coleira invisível na própria morte,
e vai caminhar.
— Adam Donaldson Powell
__________________
A gaiola é bela; a mentira é feia
Ensinaram-nos a polir a gaiola
até que as grades refletissem o céu.
A clarear os dentes.
A achatar o estômago.
A cauterizar cada ruga antes que ela pudesse virar uma frase.
A temer a suavidade
como se a própria ternura fosse uma doença contagiosa.
E obedecemos.
Alinhamos nossos corpos sob luzes de catedrais
em templos feitos de espelhos e misericórdia fluorescente,
oferecendo nossos corpos aos sacerdotes algorítmicos:
bisturi, soro, inanição,
whey protein misturado ao desespero,
sorrisos revestidos de branco como lápides.
Cada outdoor tornou-se escritura sagrada.
Cada capa de revista, um mandamento.
Não envelhecerás.
Não cederás à gravidade.
Não descansarás.
Permanecerás consumível.
Então aprendemos a nos esculpir
em silhuetas vendáveis.
As mulheres rasparam a fome contra os próprios quadris
até que suas costelas se parecessem com gaiolas de pássaros.
Os homens engoliram ferro e fúria
até que seus corações batessem como máquinas aprisionadas.
Crianças encaravam telas luminosas
já pedindo desculpas por seus rostos.
E os ricos vendiam imortalidade
como se fosse perfume.
Deslizavam pelos oceanos
em iates maiores que vilarejos,
bebiam água glacial em taças de cristal,
posavam diante de piscinas infinitas
com esposas-troféu envernizadas em diamantes,
maridos-troféu bronzeados como monumentos,
todos sorrindo o mesmo sorriso embalsamado
de pessoas aterrorizadas de parar de performar.
Até o paraíso virou trabalho.
Férias deixaram de ser jornadas
e passaram a ser evidência.
Prova de valor.
Prova de que alguém existia da maneira correta.
O pôr do sol não era contemplado,
mas publicado.
A refeição não era saboreada,
mas documentada.
O beijo não era sentido,
mas exibido
como uma fusão corporativa entre crânios atraentes.
E por baixo de tudo isso: exaustão.
Uma civilização sonâmbula sobre esteiras,
correndo para lugar nenhum,
queimando calorias para deuses que não nos amam.
Nossas rodas de hamster brilhavam em neon.
Nossas gaiolas vinham com Wi-Fi.
Chamávamos isso de liberdade
porque a porta era pintada de ouro.
Enquanto isso, a solidão se espalhava
pela população
como mofo negro sob o papel de parede.
As pessoas aprenderam a se curar para os outros
mas esqueceram como se conhecer.
Esqueceram como sentar em silêncio
sem alcançar uma tela
como quem busca um narcótico.
Viramos arquivistas da nossa própria performance.
Cada defeito ampliado.
Cada estranho, um competidor.
Cada amigo secretamente medido
por beleza, status, seguidores, juventude.
E a vergonha virou moeda.
Gastávamos sem moderação.
Zombávamos dos velhos
porque temíamos nos tornar visíveis para a morte.
Zombávamos dos gordos
porque adorávamos a privação.
Zombávamos dos pobres
porque confundíamos riqueza com virtude.
Zombávamos dos solitários
enquanto construíamos economias inteiras
projetadas para isolar.
Até a saúde virou vaidade vestindo jaleco.
As pessoas contavam passos
mas não bênçãos.
Calculavam macronutrientes
enquanto casamentos apodreciam em silêncio.
Otimizavam ciclos de sono
mas acordavam todas as manhãs
com almas como shopping centers abandonados.
Os profetas da autoajuda chegaram em jatinhos particulares
para ensinar vazio como iluminação.
“Manifeste abundância.”
“Trabalhe mais duro.”
“Torne-se sua melhor versão.”
Como se o eu fosse um produto prestes a ser lançado.
Como se seres humanos nascessem defeituosos
e precisassem conquistar o direito de existir
através de um aperfeiçoamento perpétuo.
Então injetamos juventude em nossos rostos
enquanto a história desmoronava ao nosso redor.
Filtramos nossa pele até ela ficar lisa
enquanto as florestas queimavam.
Compramos garrafas motivacionais de água
enquanto nossos espíritos morriam de sede.
E ainda assim a máquina exigia mais.
Mais beleza.
Mais produtividade.
Mais otimização.
Mais inveja disfarçada de aspiração.
Porque uma população que odeia a si mesma
é fácil de vender.
Os inseguros são consumidores obedientes.
Os solitários dão lucro.
Os exaustos não se revoltam.
Então os motores continuaram rugindo.
Fábricas de desejo.
Linhas de montagem da inadequação.
Corredores infinitos de rolagem de tela
onde milhões vagavam,
famintos por significado
enquanto se empanturravam de aparências.
E em algum lugar sob todo o ruído,
sob os sorrisos cosméticos
e as férias cuidadosamente encenadas
e a juventude preservada quimicamente,
o corpo continuava dizendo a verdade.
Nos ataques de pânico.
Na insônia.
Na compulsão alimentar.
Na apatia.
No vício.
No ódio silencioso ao espelho.
A alma não floresce
quando é tratada como material de branding.
Ela definha.
E ainda assim, mesmo agora,
algo obstinado sobrevive em nós.
Uma dor primitiva
por alegria não comprada.
Por risadas de dentes tortos.
Por barrigas não escondidas.
Por rostos autorizados a envelhecer como paisagens honestas.
Por amor intocado pela transação.
Por amizades que não exigem espectadores.
Por manhãs que não pertencem a nenhuma corporação.
Por corpos tratados não como anúncios
mas como lares.
Talvez um dia
desçamos juntos da esteira.
Talvez finalmente escutemos
o terrível silêncio
depois que as máquinas pararem.
E talvez, nesse silêncio,
descubramos
que nunca fomos feitos para nos tornar perfeitos.
Apenas vivos.
— Adam Donaldson Powell
_________________
entre dois mundos
Copacabana brilhava em ouro líquido,
o Atlântico respirando lá embaixo
como um peito antigo, cansado de marés.
No último andar do hotel,
entre lustres de cristal e vozes baixas,
os pratos chegavam como pequenas obras de arte —
manteiga, tucupi, vinho branco,
flores comestíveis repousando
sobre peixes mais delicados que lembranças.
A cozinha franco-brasileira
tentava transformar o mundo em harmonia:
molhos sedosos, camarões dourados,
um perfume de ervas e fumaça
pairando entre taças de champanhe.
As pessoas mastigavam devagar
como quem acredita merecer beleza.
Mas eu havia chegado a pé.
Quatro quarteirões apenas,
e ainda assim parecia atravessar dois planetas.
Desviei de corpos encolhidos nas calçadas,
de homens dormindo sobre papelão úmido,
de mulheres pedindo moedas
com crianças agarradas ao silêncio.
Tinham descido das favelas
para procurar segurança sob as luzes da praia,
como náufragos procurando um farol
que nunca os chamaria pelo nome.
Quando o prato principal chegou,
eu já não tinha fome suficiente
para justificar aquele luxo.
Metade da comida ficou intacta,
intocada como culpa.
Pensei em pedir uma marmita
e senti vergonha —
não da pobreza,
mas da etiqueta,
da porcelana fina,
do absurdo de existir um protocolo
para sobras em um lugar
onde uma única garfada custava mais
que um dia inteiro de trabalho.
O garçom sorriu com gentileza antiga.
Disse, quase num sussurro:
“É costume dar aos pobres no caminho de casa.”
Como se dissesse:
a cidade já aprendeu a conviver
com sua própria ferida.
Saí carregando a embalagem quente
contra o peito.
A noite do Rio continuava linda demais,
perigosamente linda,
e eu distribuí a comida depressa,
sem coragem de olhar muito tempo
nos olhos de ninguém.
Um homem agradeceu.
Uma mulher beijou meus dedos.
Outro apenas segurou a sacola
como quem segura um milagre pequeno
e temporário.
Quando cheguei ao quarto do hotel,
chorei.
As janelas enormes mostravam o mar escuro,
e Manhattan voltou inteira à minha memória —
eu também desviando de moradores de rua
sob luzes frias de inverno,
apressado demais, ocupado demais,
treinado demais para não ver.
Mas no Rio
as distâncias pareciam mais cruéis.
Ali, riqueza e miséria
não viviam em bairros separados:
jantavam na mesma avenida,
respiravam o mesmo sal,
dividiam a mesma lua sobre o oceano.
Pensei em encurtar a viagem.
Quis fugir daquela beleza rachada,
da culpa que grudava na pele
feito maresia.
Mas não fui embora.
Na manhã seguinte,
peguei um ônibus local para Paraty.
E enquanto o Rio desaparecia pela janela,
com seus morros verdes
e seus contrastes impossíveis,
eu percebi que algumas cidades
não nos deixam partir intactos.
— Adam Donaldson Powell
_________________
Mantendo as aparências
Havia uma influencer, a Ju,
Que vivia “em Dubai” e em “Peru”.
Com champanhe e publi,
E jantar digno de filme—
(Tirava a foto e devolvia o menu).
Postava viagem toda semana,
Vida leve, chique, soberana.
Mas o aluguel atrasado,
E o “hotel estrelado”?
Era filtro e parede bacana.
Dizia ter marca pra lançar,
Com “empresas loucas pra fechar”.
Mas o e-mail enviado
Era autoendereçado—
Ela mesma a se convidar.
Namoro não ia pra frente,
Algo parecia ausente.
Entre crise e aparência,
E zero consistência,
Virou especialista em “presente”.
Então brindemos à Ju, afinal—
Sua vida é cinema virtual.
Se enganar é talento,
Ela é 100% nesse intento…
Mas o caos tá chegando, pontual.
—Adam Donaldson Powell
________________
Carta fictícia de uma idosa russa para Vladimir Putin.
Caro Vova.
Já estou velha e nunca aprendi a escrever cartas eletrônicas, por isso estou escrevendo à mão. Por favor, desculpe minha familiaridade, minha brevidade e minha franqueza.
Vova, acompanho você desde o início de sua ilustre carreira. Você sempre foi bonito e inteligente — um verdadeiro “conquistador”. Você liderou nossa amada pátria com inteligência e compaixão. Mas algo mudou, caro Vova. Ouvi dizer que menos camaradas e cidadãos se referem a você com termos carinhosos agora, e que alguns a chamam, zombeteiramente, de “Бункерный дед” pelas costas. Há muitos rumores e especulações sobre sua saúde física e mental, e você não parece mais feliz na televisão.
O mundo está cheio de desafios difíceis, sem dúvida, mas os russos historicamente sempre foram inteligentes em se unir contra as dificuldades e calamidades. Algo parece diferente agora. O vento não sopra mais a nosso favor, e seus poucos amigos e apoiadores, dentro e fora da Rússia, parecem um grupo heterogêneo.
Caro Vova, você tem certeza de que pode confiar nas pessoas ao seu redor? Muitos parecem ter suas próprias ambições, e parece que alguns deles talvez lhe vejam como um obstáculo.
Vova, muitos dos meus amigos perderam seus filhos e netos nesta guerra sem sentido. Não parecia sem sentido no início, mas desde então a situação saiu do controle. Até patriotas como eu estão preocupados — preocupados com a Rússia, nossos homens, nossos meios de subsistência e por você, caro Vova.
Você não consegue encontrar uma saída para esta situação desesperadora? Houve muita guerra e muitas ameaças em nossa história. Estamos cansados.
Você não concorda, caro Vova?!!
Faça uma velha feliz. Retorne à sua posição como uma líder respeitada do mundo. Então, e somente então, a Rússia desfrutará novamente de paz e propriedade… e amizade.
Bênçãos de
Anya Levedeva, 96 anos
__________________
carta fictícia de salai aos admiradores do retrato da mona lisa.
La Gioconda
Dizem que uma piada muito boa pode durar uma eternidade. Jurei a Leonardo que manteria nosso segredo enquanto vivêssemos, e assim o fiz. Mas não era um grande segredo. As pessoas eram geralmente ingênuas e estúpidas naquela época e, surpreendentemente, a maioria das pessoas ainda não consegue entender isso hoje. Vou lhe dar uma grande dica: não estou falando com você do túmulo, mas por meio de uma pintura. O nome da pintura é um anagrama do meu nome. Eu era gay, vivia travestido e compartilhava o estúdio de Leonardo e, às vezes, sua cama. Servi de modelo para várias pinturas de Leonardo, até mesmo como substituto de pessoas difíceis que não podiam se sentar por muito tempo ou com a frequência necessária. Você já adivinhou? Você não reconhece o nariz, a testa e o sorriso característicos em muitas das pinturas de Leonardo?
Era nossa piada, mas agora foi longe demais. Todos os fãs idiotas posando para selfies na minha frente – disfarçados, sorrindo timidamente e sussurrando “Eu tenho um segredo!” – insistindo que eu sou uma femme fatale. Leonardo gostou do sexo e das minhas palhaçadas, com certeza. Mas eu era apenas uma bicha se divertindo, e ainda estou rindo de todos vocês.
Tudo bem, continuem me homenageando… mas será que é pedir demais que agora me amem pelo que eu era?
Leonardo sempre me chamou de sua corujinha. E assim ele pintou meu eterno flerte. Aposto que você acha que só tenho olhos para você. Não estou certo?
xoxo
Salai (L – I -S – A)
— Adam Donaldson Powell __________________
Epitáfio
Quando a última luz afrouxar
seu domínio sobre o meu nome,
e os arquivos cuidadosos do eu
começarem a se desfazer—
que os discursos caiam primeiro,
seus argumentos polidos se apagando
como moedas no fundo de um poço.
Que os manifestos se dispersem ao vento,
sua urgência sobrevivida pelo silêncio.
Deixem os livros que nunca terminei,
as telas que buscavam um sentido,
as fotografias que tentaram prender o tempo
e encontraram apenas o seu eco.
Até as perguntas—
essas chamas vivas e insistentes—
deixem que se apaguem sem resposta.
Pois nada disso me seguirá
além do pequeno limiar sem nome
onde os títulos se soltam
e toda esperteza é gentilmente recusada.
O que restará—
se algo ousar restar—
é mais simples, e muito menos adornado:
a gravidade silenciosa de mãos dadas
sem testemunhas,
as misericórdias não registradas,
o perdão dado tarde demais
mas ainda assim dado,
as vezes em que escolhi ficar
quando partir era mais fácil,
a coragem frágil de me abrir
de novo, e de novo,
apesar das evidências.
Meçam-me ali—
não no ruído que fiz,
nem nas sombras que persegui até lhes dar forma,
mas no calor que mantive vivo
entre mim e outro.
Se eu tiver de ser escrito de algum modo,
que seja nesta breve linha:
que aprendi, imperfeitamente,
a amar—
e fui, por um momento,
amado de volta.
— Adam Donaldson Powell
_____________________
Sono / Vigília
- Insônia
As ovelhas se tornaram indomáveis—
já não respeitam cercas,
saltam afiadas sobre meus pensamentos,
deixam fios de lã presos na inquietação.
Mesmo assim eu conto:
um, dois, três—
seus cascos tilintam
como moedas caindo
nos vazios da minha cabeça.
Viro o travesseiro:
frio, morno,
como se o sono fosse um bicho arisco
que só chega se eu ficar imóvel.
Respiro devagar.
Mais devagar.
Até que cada respiração pesa,
trabalho, fracasso.
O relógio soa alto demais.
O tempo já não flui:
se estica, se torce—
cada minuto aperta mais.
Tento esvaziar a mente,
mas ela se enche
de instruções para se esvaziar.
Escuro.
Silêncio.
A forma do nada—
mas o nada também tem bordas,
e eu esbarro nelas.
A manhã espera, inevitável.
E eu a encaro acordado,
exausto
de não dormir.
II. Sono que toma
O sono não vem:
ele invade.
No meio de uma frase
o mundo se desfaz nas bordas,
vozes viram fios
que não consigo segurar.
Já adormeci em cadeiras,
em ônibus,
uma vez de pé,
como um casaco esquecido
numa parede.
Café é boato.
Água fria, tentativa.
Meu corpo sempre escolhe
outro lugar—
uma gravidade interna.
Às vezes riem:
“que bom isso”, dizem,
enquanto eu sumo de novo
no meio da vida.
Os sonhos vazam para o dia,
incompletos, insistentes—
outra realidade
mal costurada sobre esta.
Acordo em pedaços:
um nome perdido,
um instante apagado,
um quarto já diferente.
Aqui o sono não acolhe—
rouba.
Leva horas inteiras
e deixa
só um véu.
III. Cerco da mente desperta
Antes que a vigésima quinta hora
afrouxe seu aperto,
ando por corredores estreitos
da minha própria mente—
vigia que não desiste.
A cama vira campo de batalha,
lençóis como serpentes pacientes
sussurrando rendição.
Cada respiração
é contada, disputada.
Os pensamentos marcham:
culpas pela metade,
frases interrompidas,
ecos sem fim.
Não desaparecem—
pesam como ferro.
O teto se inclina, escuta.
Sombras alongam dedos,
medem o desgaste da vontade.
Negocio com a noite:
mais um minuto,
mais um segundo—
como se pensar fosse
uma chama frágil
que só eu sustento.
Mas o relógio não cede.
Seu ritmo pesa,
um pêndulo que atravessa
corpo e mente,
apagando contornos.
A vigília falha.
Palavras viram murmúrio,
murmúrio silêncio—
e silêncio algo vasto,
à espera sob a superfície.
Então—
um colapso mudo.
Não derrota,
mas furto:
como o sopro no frio.
O vigia parte,
as paredes cedem,
e eu me deixo levar
pela corrente escura
além da vontade.
IV. Travessia noturna
Na vigésima quinta hora,
quando a insônia cede
a um crepúsculo junguiano,
o tique-taque perfeito
do relógio
trai a mente
com seu ritmo cruel.
Um réquiem de abandono:
almas desprotegidas
são conduzidas
ao limiar do tempo.
Os ponteiros se desfazem,
membros sem corpo
me puxam
para um esquecimento giratório.
Caio sem fim:
ruínas suspensas,
selvas antigas,
até uma galáxia
de fragmentos verdes translúcidos.
Batimentos de outros—
tantos, ainda com medo—
me forçam ao grito
antes do impacto.
Acordo:
agarrado
à luz do relógio.
V. Reaprender a noite
Levanto de súbito—
o ar vem em golpes,
o coração protesta
contra profundezas invisíveis.
O quarto retorna:
arestas,
paredes cúmplices,
o relógio, intacto.
Não há abismo—
só o eco,
como teia atrás dos olhos.
Recolho a queda,
respiração por respiração,
como cacos de vidro.
Devagar.
Com cuidado.
Nomeio o que resta:
cama,
corpo,
noite ainda aberta.
O coração desacelera:
de alarme
a cautela,
de cautela
a calma.
Os pensamentos se acalmam,
viram corredores suaves,
luz baixa, ordem.
Nada salta da escuridão.
Aliso o instante.
Retiro as dobras
com silêncio.
Desta vez não caio:
desço.
Não puxado,
mas conduzido.
Fecho os olhos
como quem entra na água:
testa,
se entrega.
E além do medo,
o sono espera—
não como prisão,
mas como guia paciente,
de mãos leves.
— Adam Donaldson Powell
____________________
Entre nós, poetas
(Lamento de um poeta)
Aprendi cedo
que o silêncio não é vazio—
ele é povoado por fantasmas
que só eu consigo ouvir.
Eles vêm à noite, na maioria das vezes,
quando o mundo afrouxa o seu domínio
sobre o ruído e as obrigações,
quando o riso pertence a outros cômodos
e eu fico apenas com o eco do meu.
Há um preço nisso—
em permanecer imóvel enquanto a vida
passa como um rio pelos meus pés parados,
em escolher a companhia fria das palavras
em vez do caos quente e dissolvente das pessoas.
Eu vi amizades se tornarem tênues
como papel gasto,
vi o amor se cansar
de bater a uma porta
que eu não abria
porque estava ocupado
tentando descrever o som das batidas.
Você acha que poesia é beleza—
mas a beleza é apenas a tensão superficial
de algo mais profundo,
algo se partindo.
Cada verso que escrevo
é pago em ausência.
Cada metáfora
é um momento que não vivi,
mas dissequei,
preso a uma página como uma asa frágil.
Amei em fragmentos,
lembrei em excesso,
imaginei mundos inteiros
só para evitar o inacabado
que espera do lado de fora da minha janela.
E ainda—
ainda—
eu volto a isso.
À página em branco
que parece mais um lar
do que qualquer par de braços.
Porque há coisas
afiadas demais para carregar no corpo,
vastas demais para deixar sem nome.
Porque sentir tudo
é insuportável
a menos que seja transformado.
Então eu talho minha solidão
em algo que respira.
Faço a solidão falar
numa língua que outros podem tomar emprestada.
E às vezes—
alguém, em algum lugar,
lê um verso
e se sente menos só.
E nesse instante fugaz, impossível,
o silêncio me perdoa.
— Adam Donaldson Powell
___________________
uma apologia da identidade: a fome que se recusa a ser domada
Não me interprete mal—
eu ensaiei esta confissão diante de espelhos,
no reflexo opaco das janelas de trem,
nos olhos de homens que queriam menos que o mito.
Eu sei o que sou.
Um colecionador de fraturas,
um curador de ruína requintada—
atraído não por homens, mas por suas feridas não ditas,
pelos cômodos trancados atrás de suas costelas
onde algo feral caminha, invisível.
Eu digo amor,
mas não é amor como eles o catalogariam—
não o arquivo doméstico e organizado de manhãs compartilhadas,
de escovas de dente inclinadas uma em direção à outra
como juncos obedientes.
Não.
Eu quero o estremecer antes do toque,
a hesitação antes que o nome seja pronunciado,
o silêncio que se estende por tempo demais
e ousa que eu o ultrapasse.
Eu quero o homem que não cede.
E sim—
eu os nomeio como santos de uma liturgia privada:
Genet, todo crime de veludo e traição sagrada,
Mishima, esculpido em aço e sóis impossíveis.
Você me ouve?
(Eu sei que ouve—
você atrás da quarta parede,
e você atrás da quinta,
onde o julgamento finge não existir.)
Você vê o padrão.
Você vê a fome vestida de devoção.
—
Eu digo a mim mesmo que é misericórdia.
Que só eu sou fluente
no dialeto de sua contenção,
que só eu posso extrair a confissão
de lábios treinados para sangrar antes de suplicar.
Eu imagino isso—
ah, eu coreografo com precisão obscena:
O momento da fratura.
A súbita rendição.
A voz, baixa, quase envergonhada—
Estou cansado.
E eu, a testemunha necessária,
recolheria esse cansaço como contrabando,
o acolheria, o santificaria,
o chamaria de verdade.
Eu diria:
Você está seguro agora.
(E isso não me tornaria divino?)
—
Mas mesmo enquanto digo isso,
sinto a mentira pressionar contra meus dentes.
Segurança não é o que eu busco.
Não—
eu busco a resistência,
a recusa lenta e elegante
que afia o meu querer
em algo quase belo.
Se cedem cedo demais,
se dissolvem.
Se amolecem,
desaparecem na terrível categoria do possível.
E o que faço eu com o possível?
O que faço eu com homens
que respondem perguntas diretamente,
que colocam suas feridas em minhas mãos
como oferendas já desembrulhadas?
Eles são gentis.
Eles estão disponíveis.
Eles são—
Deus os perdoe—previsíveis.
Eu os aprendo rápido demais.
Mapeio seus medos,
traço as bordas de seus desejos,
encontro a alavanca que os faz se voltar para mim
com aquele olhar—
aquele olhar que diz:
Diga-me quem ser.
E eu digo.
Claro que digo.
Eu me torno o arquiteto silencioso de suas afeições,
ajustando tom, tempo, distância—
um gesto retido aqui,
um olhar prolongado ali—
até que estejam dispostos ao meu redor
como móveis em um quarto
que eu já não desejo habitar.
—
Esta é a parte que não confesso em voz alta:
Controle é um pobre substituto para conquista.
A domesticação é a morte do desejo.
Eu transformei lobos em animais domésticos,
e então me perguntei por que não mordiam.
—
Então eu retorno, de novo e de novo,
ao inalcançável.
Aos homens que nunca me deixariam entrar,
que prefeririam arder
a serem compreendidos.
Eles permanecem intactos.
Eles permanecem outros.
E, portanto, permanecem perfeitos.
—
Você vê agora?
(Sim—vê. Não desvie o olhar.)
Isto não é romance.
Isto não é salvação.
Isto é identidade.
Eu sou o predador de portas fechadas,
o devoto do não dito,
aquele que confunde distância com profundidade
e resistência com significado.
Eu não os quero como são—
eu os quero no momento da ruptura,
e apenas se a ruptura for rara,
e apenas se eu for a causa.
—
Mas aqui está a aritmética cruel:
Os verdadeiramente quebrados não encenam suas fraturas sob comando.
Os verdadeiramente guardados não se abrandam para estranhos.
Os verdadeiramente distantes permanecem distantes.
Eles não precisam de mim.
E aqueles que precisam de mim—
os que se inclinam, que se abrem, que oferecem—
tornam-se transparentes rápido demais,
seu mistério evaporando
sob o calor da minha atenção.
Eu os ultrapasso
antes mesmo de chegarem.
—
Então eu caminho por este corredor estreito
entre fome e tédio,
entre mito e manutenção,
nunca chegando, nunca satisfeito.
Sozinho—
não porque ninguém se aproxime,
mas porque eu recuso a proximidade
que não me resiste.
—
Escute com atenção agora—
isto é o mais perto que chegarei de um pedido de desculpas:
Eu sei que a missão é impossível.
Eu sei que os homens que busco
existem apenas a uma distância
que os mantém intocáveis,
intactos pelo meu desejo.
Eu sei que, se algum deles um dia se voltasse—
realmente se voltasse—
e dissesse, Aqui, tome,
eu recuaria.
Ou pior—
eu aceitaria,
e ao aceitar, destruiria a própria tensão
que o tornava luminoso.
—
E ainda assim.
E ainda assim—
eu acordo todas as manhãs com o mesmo voto silencioso:
encontrar a fratura que não cede,
amar o homem que não pode ser tido,
permanecer no limiar do silêncio de outro
e chamá-lo de lar.
—
Você pode chamar isso de solidão.
Você pode chamar isso de patologia.
Eu chamo—
identidade.
E o que é um homem
sem a história que se recusa a abandonar?
— Adam Donaldson Powell
_____________________
Caro Gringo…
No Brasil, amigo estrangeiro, escuta com atenção,
Que o jeito de falar muda mais que estação.
Entre “tu”, “você” e “o senhor”, há toda uma dança,
De respeito, intimidade e até de confiança.
“Tu” é íntimo, é próximo, é quase um abraço,
Se usa com quem anda contigo no mesmo compasso.
No Sul e no Norte, ele reina sem medo,
Mas às vezes vem com “você” — e tá tudo em segredo.
“Você” é coringa, resolve a situação,
Nem muito distante, nem cheio de formalização.
Serve pra amigos, colegas, gente que acabou de conhecer,
É tipo um meio-termo seguro pra não se perder.
“O senhor” e “a senhora” já pedem respeito,
Com mais formalidade no tom e no jeito.
Pra alguém mais velho, ou num trato oficial,
É sinal de educação — e cai sempre bem, afinal.
Mas cuidado, estrangeiro, com tanta variação,
Que o Brasil é gigante e muda de região.
Observe o contexto, escute com atenção,
E logo você fala como um nativo, sem confusão.
— Adam Donaldson Powell
______________________
DIAS DE CÃO
Em dias de cão,
quando nada dá certo,
os jovens impacientes reclamam
que os deuses não estão
estão do seu lado.
Seus lábios franzidos
podem se gabar de indiferença
mas as cicatrizes reveladoras
de abuso de si mesmo destacam
a miséria da derrota.
— Adam Donaldson Powell
___________________________
“O Buffet das Palavras”
No balcão reluzente da delicatéssen da fala,
entro faminto de sentido, com a língua na sala,
onde verbos em conserva cochicham com advérbios,
e adjetivos flambados posam, vaidosos e soberbos.
Há palavras de um dólar, miúdas, de feira,
“coisa”, “negócio”, “tipo”, a turma corriqueira,
que cabem no bolso, que resolvem ligeiro,
mas voltam no eco com gosto de raso e ligeiro.
Logo ao lado, em bandeja de prata, com preço pomposo,
repousam palavras de cinquenta dólares, ar misterioso:
“pernóstico”, “idiossincrasia”, “inexorável” e “loquaz”,
cada sílaba com gravata, cada vogal com cartaz.
O garçom me sussurra: “Sirva-se com elegância”,
mas tropeço na própria língua—que grande extravagância!
Pego “paralelepípedo” só pra ver o povo olhar,
tropeço na sobremesa e deixo o verbo escapar.
Há palavras que vêm com aviso: “não toque, faz mal”,
“irremediável”, “nunca”, “sempre”—tempero radical.
Uma pitada dessas, pronto, azeda o jantar,
e o perdão vira sobremesa difícil de achar.
No canto escuro, escondidas, as proibidas cochicham,
cobertas por panos finos que as leis não capricham.
São doces amargos que a gente prova em segredo,
e depois lava a boca com o sabão do arrependimento azedo.
Ali, numa jarra transparente, palavras inúteis boiam:
“basicamente”, “literalmente”—que nadam, nadam e não voam.
Enchem o prato de espuma, fazem volume na frase,
mas fome de sentido? Ah, essa não se satisfaz nem de base.
Tem também as que a gente usa só pra cutucar,
palavras-agulha, prontas pra espetar:
“fracasso”, “ridículo”, “ninguém te pediu”,
servem quentes na mesa onde o carinho sumiu.
E as que não voltam jamais, como copo quebrado,
uma vez arremessadas, estilhaçam o lado a lado.
“Eu não me importo”, “tanto faz”, “você não presta”,
depois a gente varre, mas a rachadura resta.
Mas veja, na vitrine mais simples e bela,
há palavras de perdão em travessa singela:
“desculpa”, “eu errei”, “posso tentar de novo?”,
têm gosto de casa e consertam o povo.
Pego um punhado dessas, com cuidado e atenção,
equilibro no prato da minha intenção:
um pouco de leveza, um pouco de precisão,
menos espuma vazia, mais pão com coração.
No caixa, a conta chega—e não aceita moeda:
paga-se em consequências, cada frase que se enreda.
Saio cheio de lições e um guardanapo de memória:
falar é cozinhar destinos—e silêncio também tem história.
— Adam Donaldson Powell
_________________
Deus diz: tsc, tsc, tsc:
Não Me cite erroneamente.
Revisei os registros.
Não há cláusula, pacto, nem letras miúdas em que Eu tenha lhe concedido o direito sagrado
de ser voluntariamente, triunfantemente obtuso.
Eu lhe dei uma mente—
não um objeto decorativo para juntar poeira
ao lado de suas convicções.
E, ainda assim, aqui está você,
polindo sua ignorância até fazê-la brilhar como um espelho,
admirando sua própria recusa em pensar como se fosse uma conquista moral.
Você chama isso de liberdade.
Eu chamo de deixar o instrumento no estojo e insistir que você dominou a sinfonia.
Sim,
Eu o fiz capaz de não saber—
isso era inevitável.
Mas você refinou isso
em uma marca de estilo de vida.
Você finca sua bandeira no terreno mais raso e declara o horizonte superestimado.
Você bebe do poço da certeza
e se vangloria de nunca ter sentido sede. E então—esta é a minha parte favorita—você Me invoca.
Como se Eu tivesse sussurrado:
“Vá em frente, ignore o contexto,
apegue-se firmemente ao seu primeiro pensamento,
e defenda-o como se os anjos dependessem disso.”
Não.
Se Eu quisesse um vazio obediente,
teria parado nas pedras.
Elas nunca discutem, nunca aprendem, e nunca confundem inércia com percepção.
Mas você—
você recebeu a curiosidade,
essa coceira sagrada atrás dos olhos,
esse silencioso e persistente “tem certeza?”
E você a afastou
como se fosse um incômodo.
Você construiu templos para suas conclusões antes de assentar um único tijolo de dúvida,
e então trancou as portas
contra qualquer revisão.
Não coloque isso aos Meus pés.
Eu não ordenei sua indiferença.
Eu não santifiquei sua certeza.
Eu lhe dei a inquietação de pensar
e as ferramentas para aliviá-la—
não a desculpa para fingir que ela não existe.
Então fique com o seu suposto “direito”.
Emoldure-o. Defenda-o. Grite-o.
Mas não o atribua a Mim.
Eu lhe dei uma mente.
O resto—
sua ignorância orgulhosa e cuidadosamente cultivada—
é inteiramente invenção sua.
_________________
pensando em um amante morto
as memórias
que nunca vão embora
— um amor morto
— Adam Donaldson Powell
_________________
Querido Corpo
Talvez seja hora de conversarmos – sabe, sobre o elefante na sala. Sim, sobre o envelhecimento. Veja bem, eu tenho pensado… pensado nas inúmeras vezes em que te incentivei a parar de reclamar de dores, cansaço, estresse físico, resfriados, gripes, etc. Eu sempre sussurrava palavras doces no seu ouvido e te fazia sentir culpado por procrastinar e ser preguiçoso. Sim, você era preguiçoso quando sempre dava desculpas para não ser o superdotado que você sempre deveria ter sido. Como sabemos, nunca somos bons o suficiente – nem aos nossos próprios olhos, nem aos olhos dos outros.
Eu só estava tentando ajudar. Mas a verdade é que eu também já fui sujeito a dúvidas e depressão; e, mais recentemente, demência e perda de memória. Não é sua culpa, meu irmão. O corpo e a mente são máquinas incríveis que normalmente suportam bastante abuso e uso excessivo. Mas todos os regimes de manutenção e medidas de reparo acabam se tornando impotentes diante da inevitabilidade do envelhecimento. Todos nós temos prazo de validade. Nem sempre fui um bom ouvinte, e você também pode ser bem teimoso. Quando eu te ignoro e trabalho contra você por tempo suficiente, você simplesmente entra em greve ou “sofre um acidente”. Claro, essas brigas podem durar anos, criando fraquezas físicas e mentais que reduzem nossa capacidade operacional ao longo do tempo.
Bem, nós sabemos de tudo isso, mano. Gritar conosco mesmos por falhas de comunicação no passado e cooperação às vezes incerta é inútil agora que estamos velhos.
Não podemos concordar em nos aceitar como somos e encarar esta nova fase da vida com dignidade e como o casal que sempre deveríamos ser?
Te amo, amigo!
— Adam Donaldson Powell
__________________
O RETORNO PARA CASA.
Duas máquinas trabalham em conjunto para transportar o recém-chegado ao seu destino: o terminal de desembarque, a cerca de 18 metros de distância. Uma delas se chama Corpo: um mecanismo milagroso de impulsos e cilindros com veias que bombeia faíscas de inércia para órgãos e membros sem vida. A outra assumiu o nome de Escada Rolante: uma máquina simples e complexa, cujos componentes elegantes de metal e plástico obtêm sua eletricidade de um cérebro não afetado por emoções e pelo funcionamento imprevisível do baço. Juntos, esses dois cérebros planejam contrabandear o Corpo do avião para o terminal sem despertar seu potencial risco de segurança: o sistema emocional. O aparelho ocular do Corpo fixa-se na quarta parede, sem notar o destino nem a paisagem entre elas. O Cérebro envia ao Corpo impressões da Escada Rolante e, simultaneamente, comandos para “buscar e encontrar”. O Baço dorme, suficientemente cego pelos Olhos (e sofisticado demais para implementar as funções há muito descentralizadas dos Ouvidos e do Nariz). Vasos bombeiam… engrenagens giram; e os Olhos notam uma multidão de corpos semelhantes assumindo movimentos parecidos; um sinal é enviado ao Cérebro, com comunicados à imprensa para o Corpo: “Todo mundo está fazendo isso. Logo, deve estar certo!” O Corpo se move em direção à Escada Rolante com entusiasmo; e o Baço acorda abruptamente quando a Escada Rolante ri e diz “te peguei!!!” Mas o desespero só é totalmente compreendido quando o Baço percebe que o Corpo está sozinho na corrente de zumbis que caminham rapidamente, guiados pelo olhar robótico dos Olhos… e ouve a risada unilateral da Escada Rolante, que não engasga nem se abala.
— Adam Donaldson Powell
__________________
espectro.
a busca pela autodescoberta
apenas pela teoria científica
está fadada ao fracasso.
pois toda essa impressionante destreza cognitiva
logo se revela implacavelmente
falha em sua essência,
manchada pela própria incapacidade
de aceitar, sentir e demonstrar compaixão
aos outros que trilham caminhos semelhantes.
poucos compreendem a interconexão
entre o gênio mental, a philia e o ágape,
e a natureza dos laços da alma
entre os seres vivos —
humanos e não humanos.
o desafio é grande tanto para
nós que estamos
no espectro, quanto para os que não estão.
o anjo à sua porta,
que você instintivamente rejeita
como incômodo e distração,
pode na verdade estar
respondendo ao seu próprio
chamado inconsciente por ajuda,
amor e compreensão.
— Adam Donaldson Powell
___________________
Versão slam.
PROSTITUTA.
- Prostituta (Parte Um)
Titaina… aquela que teme espíritos…
não se impressiona com os franceses de lábios rígidos
e bem-vestidos, ou com os
Demis; para ela, eles são os cavaleiros
do Apocalipse.
Ela não está mais apaixonada por seus próprios
compatriotas, que vivem em favelas e trabalham
para o “homem branco” como servos do
Deus do Materialismo… traidores das antigas
tradições, do Velho Caminho e da
religião da Lemúria.
Olhando ao redor, Titaina observa as
gangues de cães selvagens que vê
correndo desenfreadamente e destemidamente pelas
ruas das favelas do Taiti;
e ela reconhece no vazio
de seus espíritos as expressões vazias e
a espuma na boca consistente com a
dos homens das favelas enquanto, sem pensar,
espancam suas esposas e estupram suas próprias filhas…
ou as de seus vizinhos.
Alguns culpam o comportamento do vício em álcool e maconha…
mas Titaina encontra o mesmo culpado sempre
que lança as “conchas divinatórias”:
“O Taiti se tornou uma ‘prostituta’ — assim como Babilônia,
Roma, Iraklion, Nova York… e o tempo da
redenção — embora aparentemente atrasado — está próximo.”
Visões de Moruroa — ‘o lugar do grande segredo’ —
e as obliterações de corais causadas pelo El Niño
passaram diante do Terceiro Olho de Titaina; explosões,
desastre ecológico, cânceres, dinheiro rápido seguido
de gentrificação e turismo, perda de tradição e espiritualidade,
sordem, pobreza e desequilíbrio social;
todos os sintomas do Inferno criado pelo “homem branco”
e exportado para os descendentes ingênuos da Lemúria e da Atlântida.
“Fomos para os cães!” exclamou Titaina,
jogando-se na calçada e
gritando em vão; sua voz não podia ser ouvida
acima do uivo dos cães.
Ao olhar para o bando de
caninos que se aproximava, Titaina sacudiu o punho
para eles e estendeu a mão
para algumas pedras ao seu alcance.
Os olhos vermelhos e flamejantes do líder da gangue de cães
ardiam como brasas em suas órbitas – levando Titaina a gritar:
“Seu filho da puta, fique longe – eu sei quem você é.
Vocês são os guardas de Cérbero – e seu número é
seis por seis por seis (666); mas vocês jamais conquistarão estas Ilhas Douradas.
Nosso Paraíso vive dentro de nós e, com a ajuda de Ta’aroa
e Vaite, em breve ressuscitaremos ‘votre paradis’.”
Os cães pareciam pouco convencidos e nada impressionados, e os gritos
das vítimas femininas dos moradores masculinos embriagados e drogados
das favelas não cessaram nem diminuíram.
Titaina preparou-se para ser dominada e devastada pelas
‘feras’ de quatro patas, dizendo: “Façam comigo o que quiserem, mas anotem minhas
palavras – eu assombrarei vocês e seus mestres diabólicos até que as águas
da Grande Onda lavem novamente a pecaminosidade
de seus costumes modernos.
Eu dançarei pessoalmente sobre seus ossos esmagados
com minha melhor saia de palha, exibindo meus seios enrugados e
abatidos e batendo os pés –
não em sua memória – mas sim em uma tentativa veemente
de transformar sua maldade em criação frutífera.
Acabem… ou vão embora!
E levem seus mestres ladrões com vocês…
não queremos nem precisamos de seus hotéis de luxo,
de seus negócios turísticos,
de seus empregos sustentados pela destruição atômica
e ruína ecológica… ou de sua perversão de
nossas tradições e cultura em
paródias de sua própria desilusão
com religião e sexualidade – agora
reduzida a uma interpretação fundamentalista
de regras e regulamentos (regularmente quebrados,
e cujas transgressões perversas
são o fundamento de toda prostituição extática).
Vá em frente: arrebate meu velho corpo,
foda minha boceta ressecada e
deixe sua lascívia babar incessantemente de suas bochechas –
mas você nunca possuirá minha alma,
ou as almas dos meus ancestrais.
Sua presunção irrita os Deuses;
e a divindade em vocês mesmos
equilibrará o desequilíbrio que vocês criaram e que
meus compatriotas aceitaram –
por impotência, ganância e
curiosidade ingênua.
Não tenho mais curiosidade sobre você;
não tenho mais medo… e não tenho mais
vergonha de quem eu sou.
Eu sou Ta’aroa… Eu sou Vaite.
Fodam-se comigo…
e vocês VÃO ser fodidos!”
O líder da gangue de cães
olhou nos olhos endurecidos da velha
Titaina e recuou,
dizendo aos seus companheiros: “Deixem-na em paz; ela é
apenas uma velha cadela, que nem consegue sentir
o medo da nossa conquista…
não só é carne ruim,
mas o prazer limitado
não vale a nossa energia.”
E com isso, os seguidores caninos recuaram –
perseguindo sons de latidos
a alguns quarteirões de distância – e o líder mancou
hesitantemente atrás, esperando
que a lágrima solitária em seu olho esquerdo
passasse despercebida
por seus colegas.
2) Prostituta (Parte Dois).
Titaina…
prostituta aposentada…
chora para si mesma.
Braços cruzados
sobre o peito,
em um autoabraço.
Balançando-se
na calçada;
implorando aos Deuses
por chuva —
para lavar a
dor da realidade,
enquanto secretamente
espera por
Pangea Ultima:
aquela canção de ninar
purificadora que, de vez em quando,
com mais eficácia,
restaura tudo à
ordem e dá
à humanidade
outra
chance
de escolher outro
cavalo no
implacável
carrossel.
3) Prostituta (Parte Três).
Hoje, Titaina recebe seus
parentes com discreta
elegância; muito parecida com as
cultas mulheres parisienses
sobre as quais ela lia tão avidamente
na juventude. É a “manhã seguinte” e
as indiscrições de ontem são
perdoadas, se não esquecidas.
Afinal, todos nós temos nossos
demônios… nossos segredos,
que aterrorizam e atormentam
tanto a nós quanto àqueles
presos em nossa teia.
A melhor parte de ter
um “colapso” na Polinésia Francesa
é a inevitável suspensão do tempo —
uma inundação azul-marinho de gentileza —
que acalma a loucura da tensão
e restaura a calma; o “Prozac” natural
nos embalando em uma indiferença eloquente:
“C’est la vie! Donc n’est pas si mauvais.”
— Adam Donaldson Powell
_________________
Original português
PROSTITUTA.
- Prostituta (Parte Um)
Titaina… aquela que teme espíritos…
não se impressiona com os franceses de lábios rígidos
e bem-vestidos, ou com os
Demis; para ela, eles são os cavaleiros
do Apocalipse.
Ela não está mais apaixonada por seus próprios
compatriotas, que vivem em favelas e trabalham
para o “homem branco” como servos do
Deus do Materialismo… traidores das antigas
tradições, do Velho Caminho e da
religião da Lemúria.
Olhando ao redor, Titaina observa as
gangues de cães selvagens que vê
correndo desenfreadamente e destemidamente pelas
ruas das favelas do Taiti;
e ela reconhece no vazio
de seus espíritos as expressões vazias e
a espuma na boca consistente com a
dos homens das favelas enquanto, sem pensar,
espancam suas esposas e estupram suas próprias filhas…
ou as de seus vizinhos.
Alguns culpam o comportamento do vício em álcool e maconha…
mas Titaina encontra o mesmo culpado sempre
que lança as “conchas divinatórias”:
“O Taiti se tornou uma ‘prostituta’ — assim como Babilônia,
Roma, Iraklion, Nova York… e o tempo da
redenção — embora aparentemente atrasado — está próximo.”
Visões de Moruroa — ‘o lugar do grande segredo’ —
e as obliterações de corais causadas pelo El Niño
passaram diante do Terceiro Olho de Titaina; explosões,
desastre ecológico, cânceres, dinheiro rápido seguido
de gentrificação e turismo, perda de tradição e espiritualidade,
sordem, pobreza e desequilíbrio social;
todos os sintomas do Inferno criado pelo “homem branco”
e exportado para os descendentes ingênuos da Lemúria e da Atlântida.
“Fomos para os cães!” exclamou Titaina,
jogando-se na calçada e
gritando em vão; sua voz não podia ser ouvida
acima do uivo dos cães.
Ao olhar para o bando de
caninos que se aproximava, Titaina sacudiu o punho
para eles e estendeu a mão
para algumas pedras ao seu alcance.
Os olhos vermelhos e flamejantes do líder da gangue de cães
ardiam como brasas em suas órbitas – levando Titaina a gritar:
“Seu filho da puta, fique longe – eu sei quem você é.
Vocês são os guardas de Cérbero – e seu número é
seis por seis por seis (666); mas vocês jamais conquistarão estas Ilhas Douradas.
Nosso Paraíso vive dentro de nós e, com a ajuda de Ta’aroa
e Vaite, em breve ressuscitaremos ‘votre paradis’.”
Os cães pareciam pouco convencidos e nada impressionados, e os gritos
das vítimas femininas dos moradores masculinos embriagados e drogados
das favelas não cessaram nem diminuíram.
Titaina preparou-se para ser dominada e devastada pelas
‘feras’ de quatro patas, dizendo: “Façam comigo o que quiserem, mas anotem minhas
palavras – eu assombrarei vocês e seus mestres diabólicos até que as águas
da Grande Onda lavem novamente a pecaminosidade
de seus costumes modernos.
Eu dançarei pessoalmente sobre seus ossos esmagados
com minha melhor saia de palha, exibindo meus seios enrugados e
abatidos e batendo os pés –
não em sua memória – mas sim em uma tentativa veemente
de transformar sua maldade em criação frutífera.
Acabem… ou vão embora!
E levem seus mestres ladrões com vocês…
não queremos nem precisamos de seus hotéis de luxo,
de seus negócios turísticos,
de seus empregos sustentados pela destruição atômica
e ruína ecológica… ou de sua perversão de
nossas tradições e cultura em
paródias de sua própria desilusão
com religião e sexualidade – agora
reduzida a uma interpretação fundamentalista
de regras e regulamentos (regularmente quebrados,
e cujas transgressões perversas
são o fundamento de toda prostituição extática).
Vá em frente: arrebate meu velho corpo,
foda minha boceta ressecada e
deixe sua lascívia babar incessantemente de suas bochechas –
mas você nunca possuirá minha alma,
ou as almas dos meus ancestrais.
Sua presunção irrita os Deuses;
e a divindade em vocês mesmos
equilibrará o desequilíbrio que vocês criaram e que
meus compatriotas aceitaram –
por impotência, ganância e
curiosidade ingênua.
Não tenho mais curiosidade sobre você;
não tenho mais medo… e não tenho mais
vergonha de quem eu sou.
Eu sou Ta’aroa… Eu sou Vaite.
Fodam-se comigo…
e vocês VÃO ser fodidos!”
O líder da gangue de cães
olhou nos olhos endurecidos da velha
Titaina e recuou,
dizendo aos seus companheiros: “Deixem-na em paz; ela é
apenas uma velha cadela, que nem consegue sentir
o medo da nossa conquista…
não só é carne ruim,
mas o prazer limitado
não vale a nossa energia.”
E com isso, os seguidores caninos recuaram –
perseguindo sons de latidos
a alguns quarteirões de distância – e o líder mancou
hesitantemente atrás, esperando
que a lágrima solitária em seu olho esquerdo
passasse despercebida
por seus colegas.
2) Prostituta (Parte Dois).
Titaina…
prostituta aposentada…
chora para si mesma.
Braços cruzados
sobre o peito,
em um autoabraço.
Balançando-se
na calçada;
implorando aos Deuses
por chuva —
para lavar a
dor da realidade,
enquanto secretamente
espera por
Pangea Ultima:
aquela canção de ninar
purificadora que, de vez em quando,
com mais eficácia,
restaura tudo à
ordem e dá
à humanidade
outra
chance
de escolher outro
cavalo no
implacável
carrossel.
3) Prostituta (Parte Três).
Hoje, Titaina recebe seus
parentes com discreta
elegância; muito parecida com as
cultas mulheres parisienses
sobre as quais ela lia tão avidamente
na juventude. É a “manhã seguinte” e
as indiscrições de ontem são
perdoadas, se não esquecidas.
Afinal, todos nós temos nossos
demônios… nossos segredos,
que aterrorizam e atormentam
tanto a nós quanto àqueles
presos em nossa teia.
A melhor parte de ter
um “colapso” na Polinésia Francesa
é a inevitável suspensão do tempo —
uma inundação azul-marinho de gentileza —
que acalma a loucura da tensão
e restaura a calma; o “Prozac” natural
nos embalando em uma indiferença eloquente:
“C’est la vie! Donc n’est pas si mauvais.”
— Adam Donaldson Powell
__________________
A audácia da imperfeição
Pacientemente, nos apegamos, desesperados por acreditar em Deus, na justiça e na humanidade.
Repetidamente, sofremos com nossa própria ignorância e imobilidade.
Admiravelmente, nos tornamos mártires e tentamos aliviar nossa dor com santidade e consideração.
Inevitavelmente, retaliamos com as mesmas táticas de nossos agressores.
No final, somos envergonhados por todos aqueles que nos consideravam extraordinários.
Normalmente, esperamos que o mundo reconheça suas críticas equivocadas.
Ironicamente, não aprendemos nada, e não perdoamos nem esquecemos.
— Adam Donaldson Powell
________________
Garganta do Diabo, Iguaçu.
À distância, as cachoeiras são majestosas e reconfortantes. Mas aproximar-se da Garganta do Diabo evoca memórias de pensamentos suicidas e vidas passadas dramáticas. E, de pé diretamente acima do vórtice em movimento rápido, começo a ouvir vozes familiares, de sereias uivando e me convidando a mergulhar, enquanto prometem cem virgens e paz eterna. Fiquei hipnotizado, mas lutei contra as energias que buscavam me puxar para o esquecimento. Ao me afastar, sinto orgulho de ter resistido mais uma vez aos meus demônios. E fixo meu olhar atentamente no panorama fantástico de cachoeiras ao longe, que são bastante indiferentes ao meu destino.
— Adam Donaldson Powell
_____________________
Quando o Crepúsculo Chega.
Quando o crepúsculo chega e a consciência adormece, ecos seculares dos tempos pré-históricos começam a cantarolar a canção de ninar do Ego… primeiro com tons graves e castanho-escuros de violoncelo que fazem a medula óssea tremer até fluir, e depois com gritos agudos, brilhantes e inaudíveis que só podem ser emitidos por anjos que pretendem provocar. Com o tempo, minha respiração irregular se transforma em ondas cor de turquesa que chicoteiam minha fortaleza psíquica hipersensível da sobriedade e do pânico iminente. Não há garantias de que estou pronto para o presente extraordinário que me será dado: um vislumbre da existência em sua pureza inacreditável, que é tão pessoal que sou forçado a agarrar minha realidade terrena e esmagar a perfeição em incontáveis pedaços nublados de espelho que chovem levemente sobre minha consciência. Acordo suado, mas não completamente de mãos vazias… e não sou a pessoa que um dia fui.
— Adam Donaldson Powell
__________________
Jornada Noturna.
Na vigésima quinta hora, enquanto a insônia cede ao crepúsculo junguiano, o tique-taque inviolável do relógio de cabeceira trai a consciência com ritmo sinistro. É um réquiem de abandono, por meio do qual almas desprotegidas são magicamente conduzidas ao limiar do fim do tempo. Os ponteiros do relógio se fundem em imagens surreais de apêndices incorpóreos e tateantes que me puxam para o infernal e turbilhonante esquecimento. Parece que estou caindo para sempre; mergulhando por ruínas flutuantes de arenito, através de selvas pré-históricas e finalmente para uma vasta galáxia de fragmentos esmeralda translúcidos. As batidas do coração de inúmeros antecessores ainda aterrorizados me impelem a gritar antes de atingir o fundo, e eu acordei em pânico: agarrando o mostrador luminoso do meu relógio inconsciente.
— Adam Donaldson Powell
_________________
Retrospectiva.
Ao longo das décadas, os fins se transformaram em começos como redemoinhos de fumaça azul-acinzentada rastejando em direção a palácios de alabastro na consciência primordial. Lá, no jardim da criatividade, as cinzas de um zilhão de impulsos carbonizados choveram pesadamente sobre os sulcos da expectativa, cultivando sonhos com experiência.
— Adam Donaldson Powell
_________________
jogos aquáticos.
jogos aquáticos ;
degelo da primavera :
gotas de água,
às vezes em cascatas …
lindas de se ver.
e ainda fascinante de ver
como esse jogo de água
pode, ao mesmo tempo
dar nova vida,
e nos sustentar …
mas, às vezes, também destruir
muito do que é
natural e artificial…
— Adam Donaldson Powell
__________________
Linhas do mar.
O refluxo de espuma e
e spray das linhas do mar
revela o multicolorido brilhante e úmido
seixos e fragmentos de conchas
nas areias da costa.
Durante o período de
seca e abandono,
o brilho desse tesouro
é apagado
pela exposição e dessecação.
Lá eles permanecem,
bastante indistinguíveis
das multidões,
e sonham com o batismo
pela recuperação da maré.
— Adam Donaldson Powell
________________
Carta erótica.
Primeiro, começamos com um beijo na boca, para abrir a porta do vosso templo sagrado. Só uma vez. O sexo começa sempre assim, meu amor. Enquanto te amarro os pulsos atrás das costas, beijo-te suavemente o pescoço e os ombros, e depois penetro nas tuas doces orelhas com a minha língua, antes de te acariciar carinhosamente o cabelo. Viro-te de costas e ficamos de frente um para o outro. Olho-te profundamente nos olhos e beijo-te de novo os lábios, desta vez com mais fervor. Depois, tapo-te a vista com o lenço e tu apertas-me mais, para que possas sentir o cheiro suado das minhas feromonas – para que fiques tonto e embriagado de expetativa. Estás excitado com as expectativas, mas eu vou surpreender-te com beijos suaves de borboleta – roço suavemente as tuas bochechas com as minhas pestanas. E depois começas a derreter-te enquanto te beijo e lambo toda a parte da frente do teu belo corpo – da cabeça aos pés. Antes de te colocar na parte de trás do corpo, engaiolo a tua pila. O teu rabo começa a tremer à medida que a minha língua se aprofunda dentro de ti. Neste momento, desejas libertar-te do lenço que te cobre os olhos e das amarras que te prendem os pulsos. Lutas contra as tuas amarras, mas em vão. Neste momento, és meu cativo. Dar-te-ei o que desejas, mas só no meu tempo. Obedecerás. E vais saborear cada momento.
— Adam Donaldson Powell
__________________
E eu adoro-o.
Eu adoro-te.
Não há outra forma de o dizer:
Eu simplesmente adoro-te!
Dia e noite.
Desde o amanhecer
Até ao pôr do sol.
Nos meus sonhos.
Estou enfeitiçado por ti.
Não há como escapar.
E eu adoro-o.
E eu adoro-o.
— Adam Donaldson Powell
__________________
Não sejas tolo.
Não sejas tolo.
Não resistas.
Aproxima-te mais de mim,
com os teus olhos
bem abertos.
Solta as correntes
que te prendem.
Beija-me, seu tolo.
Beija-me!
— Adam Donaldson Powell
_________________
Só este momento…
Só temos este momento.
Uma pausa a sós, sem fôlego.
Um momento sem começo nem fim.
Uma eternidade.
Um beijo que nos queima os lábios.
Uma paixão sem limites.
Um momento que nunca poderá ser esquecido.
Os meus sonhos são sempre iluminados quando
adormeço… pensando em ti.
Um cavalheiro, um homem…
somos perfeitos.
Mas nem sempre perfeitamente juntos.
Eu vivo para esses momentos de perfeição.
Eu vivo para morrer de amor por ti.
Só temos este momento.
Uma pausa a sós, sem fôlego.
Um momento sem começo nem fim.
Uma eternidade.
O meu corpo treme…
quando as tuas pestanas roçam
contra as minhas bochechas.
Uma paixão sem limites.
Um momento que
nunca poderá ser esquecido.
Abraça-me, e nunca me deixes ir.
Este é o nosso momento.
Um homem… um cavalheiro;
somos perfeitos.
Perfeitamente agora…
somos perfeitos.
— Adam Donaldson Powell
_________________
Adapta-te, Dom Quixote.
Confia no tempo
e na persistência
de uma pergunta honrosa,
mas acima de tudo,
confia nos ritmos sempre mutáveis
dos moinhos de vento
da tua mente.
Pois eles guardam
os segredos da vitória
e da virtude.
A sanidade é relativa.
— Adam Donaldson Powell
____________________
à medida que os anos passaram
À medida que os anos passaram
carreguei uma infância feita de gritos silenciosos.
Meus primeiros poemas, aos dezesseis,
eram mentiras romantizadas,
papel de seda sobre feridas abertas,
negação vestida de rima,
fantasia como salva-vidas.
Eu me escrevia para fora da minha própria pele,
longe das mãos que haviam quebrado,
longe da memória que não dormia.
Eu fugia para destinos desconhecidos,
para mundos de histórias em quadrinhos
onde os heróis sempre venciam
e os vilões caíam sem sangue.
Todas as noites eu rezava a Deus
por misericórdia,
por um fim suave,
para ser libertado do meu corpo,
para morrer antes do amanhecer
e não continuar.
Aos dezoito,
o mundo se abriu na nudez,
no sol e na relva,
em cores psicodélicas,
em comida natural e corpos livres,
em orgias hippies,
em marchas pela paz,
em gritos contra a guerra,
e o prazer do grito primal
que rasgava o peito.
Eu fugia da rima feminina,
dos finais suaves,
movido por uma psicologia simplificada
e pelos lemas espirituais da época.
“Estou bem, você está bem”
acabou se tornando
“Estou bem,
mas você me manda para o porão”,
onde a escuridão esperava
como uma velha conhecida.
Nos meus vinte anos,
meu desejo mudou de forma,
de duas direções
para uma.
A bissexualidade tornou-se homossexualidade,
e meus versos
tornaram-se mais intelectuais,
mais abstratos,
artisticamente velados
como vidro fumê.
Dancei minhas noites
em clubes de elite
em Nova York,
em Londres,
em Paris,
luzes de discoteca como altares piscando,
corpos em ritmo,
a embriaguez como pulsação,
mal suavizada
pelo meu trabalho como pianista clássico.
Nos meus trinta anos,
minha carreira tomou forma:
edição e poesia,
as palavras como sustento.
Fugi de uma América em declínio
mudando-me para a Europa,
atravessando o oceano
como se a água pudesse purificar.
Minha poesia tornou-se multilíngue;
o inglês acolheu outras línguas.
Chegou o espanhol,
chegou o francês,
chegou o italiano,
chegou o norueguês,
chegou o português,
as línguas se assentaram em camadas
como novas peles
sobre a antiga.
Ainda assim, meus casamentos
e divórcios
mascaravam a violência
e os abusos sexuais
que marcavam minha vida diária.
Acrescentei mais títulos:
ativista contra a AIDS,
ativista cultural,
orador público.
Escrevi e pintei
sobre a cura,
através do encontro com a morte,
a minha e a dos outros.
Viajei pelo mundo,
encontrei Deus na natureza,
em mim mesmo,
e às vezes nos outros.
Gradualmente, a poesia
substituiu a aventura romântica,
o vinho e o tabaco,
a terapia e a necessidade constante
de encher minha vida de drama.
E agora, nos meus setenta anos,
a poesia não é mais algo que faço.
Não é mais uma fuga
nascida do vício de sobreviver
por meio de façanhas forjadas na dor
e na busca do sofrimento.
Minha poesia agora é quem eu sou.
E meu brilho
é minha honestidade.
À medida que os anos passaram,
eu vivo.
— Adam Donaldson Powell
______________________
Sexo
Tu passa manteiga dos dois lados do pão?
E aí, gostoso:
se quer me foder, então fode logo.
se quer me chupar, então chupa.
se quer me arrombar, então mete sem dó.
E depois…
eu vou te levar pra um rolê
que vai foder tua cabeça pra sempre.
Tu passa manteiga dos dois lados do pão?
MEU ESTRANHO… DOCE PRA CARALHO
Doce pra caralho
essas promessas safadas tuas.
Tu me puxa,
depois me joga fora.
A gente só se pega
em sonho torto —
fora de ritmo
mas grudado de um jeito doente.
Essa fantasia não larga…
é maior que qualquer realidade.
Te vejo em todo canto:
no andar de qualquer um…
na minha mente ferrada.
Começa da tua cintura…
desce…
e sobe rápido
num flash do teu rosto
quase irrelevante.
Meu estranho.
Meu vício.
Meu estranho…
doce pra caralho.
DIRTY TALK
Papinho imundo
em bar escuro cheio de fumaça
faz o corpo ferver,
cheio de proposta suja
e mentira gostosa.
Cheiro de suor
misturado com perfume barato —
errado…
mas irresistível.
Eu amo tua pose mentirosa
me prendendo,
me puxando pro chão,
me fazendo obedecer.
A gente se provoca de longe.
Eu olho — tu desvia.
Tu olha — me come com os olhos.
Eu sorrio…
tu vaza.
Porque eu quis foder a fantasia
com a realidade cedo demais.
Depois tu ainda me encara
enquanto eu saio com outro.
E eu já meio vazio…
jogando tudo no fundo
da minha própria merda.
EU QUERO UM AMANTE
Um de verdade.
Agora.
Não esses frouxos de antes.
Quero alguém que me chupe,
me arrebente,
me pegue sem frescura.
Um cara que seja homem de verdade
e foda-se quem saiba.
Quero um amante de verdade.
Agora.
EU SÓ VOU TE FODER
Não tem outro jeito.
Esse tesão não passa.
Tudo me lembra você.
Eu só vou te foder…
Meu medo é virar doença,
algo sem cura.
Nem te ter perto bastaria.
Eu preciso te caçar.
Te derrubar.
De novo.
E de novo.
Eu só vou te foder…
Até depois de morto,
a gente ainda vai se pegar…
Mas no fim:
eu só vou te foder.
COM FOME PRA PORRA
Esperei anos.
Não tava sozinho…
mas tava vazio.
Vivendo de fantasia.
Agora eu tô com fome.
Fome animal.
Tipo lobo.
TUA BOCA
Tua boca…
me faz pensar
na melhor chupada possível.
Caralho…
que delícia.
LÍNGUA
Nada me excita mais
que tua língua…
Só a minha
te lambendo inteiro.
Te dominando.
Tu vai implorar
pra ser meu.
Beija, porra.
BEIJA!
FETICHE
Curto tudo:
couro, dor, jogo sujo…
Mas só tem uma coisa
que me deixa doente:
tu.
SEM POESIA HOJE
Nada de romance.
Cala a boca.
Olha pra mim.
Me deseja.
Ainda não —
não mandei.
Abre essa boca.
Engole.
Tá doendo?
Ótimo.
Agora vem mais.
Disciplina
é o que me deixa duro.
SEM LIMITES
Começa com língua…
mas termina comigo
te destruindo.
Eu gosto quando tu finge
que resiste…
mas quebra
gemendo.
FICA DURO
Romance depois.
Agora eu quero ver
se tu aguenta.
Fica duro.
Agora.
AMOR TORTO
Às vezes não é amor…
é só uma foda absurda.
FALA AÍ, VIADO
Qual palavra te faz perder a cabeça?
Fala.
Vou repetir até tu surtar.
MEU GOSTOSO
Quero te engravidar —
mesmo sendo impossível.
Só pelo tesão de tentar.
TU SABE
É de você que eu tô falando.
Sempre foi.
SONHOS PERDIDOS
Viva o amor.
Viva o sexo.
Viva a mentira.
Talvez eu te ache
nos meus sonhos.
ESPESSO
Céu pesado…
me lembra a gente…
e aquela parada…
tu sabe qual.
LÂMINA
Sem corrente.
Sem chicote.
Só perigo…
e corte.
CHEIRO DE TESÃO
Tu suado,
fedendo a sexo…
é isso que eu quero.
Te caço.
Te pego.
E quando tu perde o controle…
eu sei:
isso é amor.
Nem que seja por um segundo.
Depois…
só suor,
silêncio,
e porra
pra todo lado.
— Adam Donaldson Powell

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