
Este é um trecho do meu romance LGBTQ+ intitulado “O Perseguidor”.
Uma família rica em São Paulo: o nascimento de duas novas personalidades
No início…
Rachel S., de cinco anos, estava sentada em seu quarto, brincando com suas bonecas, quando tudo começou de novo. Ela odiava os gritos, as acusações, as portas batendo e o som de objetos caindo contra as paredes e o chão de madeira. Quase sempre era apenas a voz de sua mãe que ela ouvia – primeiro um choramingo e depois rapidamente se transformando em um grito estridente que fazia Rachel se encolher de medo e a deixava obcecada com o desejo de correr… para bem longe. Seu pai, que devia ter nervos de aço e ouvidos tapados de algodão, simplesmente a deixava desabafar e, por fim, saía de casa impassível e dirigia seu carro – para não voltar antes da noite, quando sua esposa já havia chorado até dormir.
Sem o pai por perto para ouvir esses desabafos horríveis, Rachel inevitavelmente podia esperar uma “visita e inspeção” de sua mãe enlouquecida. Seu humor oscilava constantemente – variando de “meu precioso botão de rosa” a “sua vadiazinha imunda!”. Era a imprevisibilidade dessa torneira emocional que “liga e desliga” que mais assustava Rachel. Esta tarde não foi diferente. Assim que Rachel ouviu o pai partir e, em seguida, o baque subsequente (e consequente) de algum objeto de vidro ou cerâmica se estilhaçando contra a parede, ela instintivamente digitou no chão rangente e se trancou no armário, agachando-se na escuridão na esperança de desaparecer da casa, da mãe e da própria vida. Ela contou os passos da mãe desde o momento em que abriu a porta do quarto de Rachel até o momento em que escancarou a porta do armário, batendo os pés e chutando os sapatos cuidadosamente arrumados no chão à direita de onde Rachel estava agachada.
“Saia daí, mocinha!” gritou a mãe. “Rachel S., saia AGORA MESMO!”
Rachel sempre soube o que a esperava se sua mãe a chamasse de “Rachel S.” em vez de simplesmente “Rachel”. Como um cachorro que havia sido severamente repreendido por seu dono, ela obedientemente e com medo saiu rastejando do armário… com a cabeça baixa.
“O que você está vestindo, sua vadiazinha?! Quantas vezes eu já te disse para NÃO usar seus melhores vestidos de domingo para brincar? Você é o motivo pelo qual seu pai e eu brigamos o tempo todo. Você faz seu papai fazer e pensar coisas ruins, Rachel. Você incentiva o mal nele se arrumando toda e parando por aí… ‘Papai, meu querido papai – posso ter isso; podemos fazer aquilo…?’” E ele é tão apaixonado por você – sua vadiazinha. Ele te leva para lá e para cá, compra isso e aquilo para você… e eu fico de fora, muitas vezes sozinha nesta maldita prisão que é esta casa – tentando desesperadamente transformá-la em um lar. Tire esse maldito vestido! gritou a mãe, finalmente arrancando-o do corpo de Rachel quando esta não conseguiu desabotoá-lo rápido o suficiente. Então, a mãe pegou os pedaços do vestido e se virou para sair pisando duro do quarto quando percebeu que várias bonecas de Rachel estavam sem cabeça, espalhadas do lado de fora da casa de bonecas, junto com algumas xícaras de chá em miniatura. “Rachel S.! O que você fez agora? Por que você arrancou a cabeça dessas lindas bonecas para as quais eu costurei vestidos à mão? Por que você sempre me machuca, Rachel?” “Por quê? Por quê? Por quê?!” Ela agora sacudia a pequena Rachel e gritava a plenos pulmões. Os olhos da mãe estavam vermelhos de tanta raiva e lágrimas, e ela mal conseguia ouvir a resposta de Rachel.
“Eu não fiz isso, mamãe! Juro. Não fui eu”, chorou a menininha mentirosa.
“Não foi você, você diz! Então QUEM foi, Rachel? Quantas vezes eu já te disse para não mentir para mim?!”
“Foi a Emily. Foi a Emily que fez isso, mamãe. Ela estava brava.”
“Quem é Emily, Rachel? Eu não vejo nenhuma Emily aqui. Você vê a Emily, Rachel S.? Olhe ao redor deste quarto… venha – olhe no armário. Onde está a Emily?!”
“Ela sumiu… ela está se escondendo”, respondeu Rachel, agora soluçando incontrolavelmente.
“Você me dá nojo, sua vadiazinha mentirosa! Agora vá lavar o rosto, vista um pijama e se arraste para a cama. Não haverá jantar para você hoje à noite. Você mesma provocou isso, sua raposinha.” E com isso, sua mãe saiu pisando duro do quarto e desapareceu escada abaixo, buscando refúgio na televisão e em uma garrafa de uísque escocês.
Pelo menos a dor de cabeça tinha passado. Verônica – sua “companheira secreta especial” – sempre a deixava com enxaqueca quando desaparecia de repente, irritada. Verônica sempre falava mal da mãe de Rachel. Rachel tentava argumentar com ela, dizendo que sua mãe não conseguia se controlar e sempre fazia o melhor que podia, mas Verônica então começava a chamar Rachel de medrosa e a provocava para fazer coisas que sabiam que sua mãe não gostaria – como se vestir com roupas de domingo, fazer bagunça no quarto tirando o máximo de brinquedos possível e espalhando-os por todo o cômodo, e outras brincadeiras divertidas, mas travessas. Hoje, Verônica tinha trazido uma amiga: Emily.
Emily parecia ainda mais quieta do que Rachel. Ela quase não dizia uma palavra – balançava-se e chupava o dedo, ou balançava-se e se abraçava numa tentativa de se confortar. Rachel pensou: “Ainda bem que a mamãe não viu isso.” Ela sempre ficava muito brava quando Rachel balançava ou chupava o dedo. Felizmente, as duas saíram antes que a mãe de Rachel entrasse no quarto. Rachel sabia como se “bloquear” emocionalmente. Isso tornava tudo mais tolerável.
Mesmo tendo sido mandada para a cama antes do jantar, Rachel não conseguiu dormir antes de ouvir o carro do pai parar novamente na entrada da garagem. Ele subiu silenciosamente os degraus até o segundo andar e fechou a porta do quarto de hóspedes, onde escolhia dormir nessas noites… e em algumas outras também.
— Adam Donaldson Powell

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