SINFONIETTA PARA DOIS INSONES 🇧🇷

SINFONIETTA PARA DOIS INSONES

para duas vozes faladas

[V1 e V2 em penumbra. Longo silêncio.]

A ideia é que duas pessoas, entre sonolentas e insones, transitam entre a consciência e a inconsciência, falando ou sonambulismo. Uma forma eficaz de encenar isso é tratar as duas vozes como linhas melódicas independentes, marcadas em cada fala por V1 e V2, usando indicações de (simultâneo), (pausa), (eco) e (silêncio breve) para sugerir os momentos em que consciência, sonho, memória e sonambulismo se sobrepõem.

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SINFONIETTA PARA DOIS INSONES

para duas vozes faladas

Wooden four-poster bed floating in dark clouds with starry night sky background

V1:
As ovelhas se tornaram indomáveis.

(pausa)

V2:
Existe um fogo silencioso dentro de mim.

V1:
Já não respeitam cercas.

V2:
Pequeno como uma brasa sob as cinzas do inverno.

(silêncio breve)

V1:
Eu conto:
um,
dois,
três—

V2:
Eu escuto:
uma pulsação,
outra,
mais uma.

V1:
Os cascos tilintam nos vazios da minha cabeça.

V2:
Os alarmes percorrem corredores cansados de osso e veia.

(simultâneo)

V1:
O relógio soa alto demais.

V2:
O corpo se torna barulhento demais.

(silêncio)

V1:
Viro o travesseiro.

V2:
Sento junto ao fogo.

V1:
Frio.

V2:
Brasa.

V1:
Morno.

V2:
Cinza.

(simultâneo, quase sussurrado)

V1:
Procuro o sono.

V2:
Procuro silêncio.

(pausa longa)

V1:
O sono não vem.

V2:
Ainda assim o fogo permanece.

V1:
Ele invade.

V2:
Ele vigia.

V1:
No meio de uma frase—

V2:
No meio de uma pulsação—

V1:
O mundo se desfaz nas bordas.

V2:
Minha mente se solta como um pássaro.

(simultâneo)

V1:
Eu desapareço.

V2:
Eu me torno livre.

(silêncio breve)

V2:
Ensinaram-nos a polir a gaiola.

V1:
Ensinaram-me a contar ovelhas.

V2:
A clarear os dentes.

V1:
A escurecer o quarto.

V2:
A permanecer consumível.

V1:
A permanecer desperto.

(simultâneo)

V1:
Não descansarás.

V2:
Não descansarás.

(pausa)

V2:
Uma civilização sonâmbula.

V1:
Uma mente sonâmbula.

V2:
Correndo para lugar nenhum.

V1:
Pensando para lugar nenhum.

V2:
Chamávamos isso de liberdade.

V1:
Chamava isso de vigília.

(silêncio)

V1:
Antes que a vigésima quinta hora afrouxe seu aperto—

V2:
Antes que o corpo esqueça seu próprio peso—

V1:
Ando por corredores estreitos da minha mente.

V2:
Ando por bairros cheirando a chuva e diesel.

V1:
Sou o vigia.

V2:
Sou o caminhante.

V1:
A cama vira campo de batalha.

V2:
A calçada vira rosário.

V1:
Os pensamentos marcham.

V2:
A bengala marca o tempo.

(simultâneo crescente)

V1:
Mais um minuto.

V2:
Mais um quarteirão.

V1:
Mais um segundo.

V2:
Mais uma manhã.

V1:
Mais um pensamento.

V2:
Mais um poema.

(silêncio)

V2:
Os médicos deram de ombros.

V1:
O relógio não cede.

V2:
Não dá para prometer o amanhã.

V1:
Não dá para acelerar a noite.

V2:
Então caminho.

V1:
Então conto.

(simultâneo)

V2:
Santo tremor.

V1:
Santo silêncio.

V2:
Santo medo.

V1:
Santo cansaço.

V2:
Santo coração.

V1:
Santo sono.

(pausa longa)

V1:
Os ponteiros se desfazem.

V2:
As grades refletem o céu.

V1:
Caio sem fim.

V2:
A porta secreta se abre.

V1:
Ruínas suspensas.

V2:
Países indomados do pensamento.

V1:
Fragmentos verdes translúcidos.

V2:
Uma estranha santidade.

(simultâneo, crescente)

V1:
Batimentos de outros—

V2:
Almas de outros—

V1:
Ainda com medo—

V2:
Ainda com medo—

V1:
Me forçam ao grito.

V2:
Me chamam para dentro.

(súbito silêncio)

V1:
Acordo.

V2:
Permaneço.

V1:
Agarrado à luz do relógio.

V2:
Sentado junto ao fogo.

(silêncio breve)

V1:
Levanto de súbito.

V2:
Esteja aqui agora.

V1:
O coração protesta.

V2:
Esteja aqui agora.

V1:
O quarto retorna.

V2:
Esteja aqui agora.

V1:
Cama.

V2:
Corpo.

V1:
Noite.

V2:
Respiração.

(simultâneo)

V1:
Nada salta da escuridão.

V2:
Nada precisa ser conquistado.

V1:
Desta vez não caio.

V2:
Desta vez não fujo.

V1:
Desço.

V2:
Permaneço.

(pausa)

V2:
Talvez um dia desçamos juntos da esteira.

V1:
Talvez um dia a noite não seja inimiga.

V2:
Talvez escutemos o silêncio.

V1:
Talvez eu atravesse o silêncio.

(simultâneo, muito suave)

V2:
Nunca fomos feitos para nos tornar perfeitos.

V1:
Nunca fomos feitos para permanecer acordados.

V2:
Apenas vivos.

V1:
Apenas adormecidos.

(silêncio longo)

V1:
Fecho os olhos.

V2:
Abro a porta.

V1:
Como quem entra na água.

V2:
Como quem entra em casa.

(simultâneo)

V1:
Além do medo—

V2:
Além da ruptura—

V1:
O sono espera.

V2:
O fogo espera.

V1:
De mãos leves.

V2:
De mãos leves.

[Silêncio.]

[Fim.]

— Adam Donaldson Powell

Bedroom with bed, wooden nightstand, handwritten papers on floor, and a walking cane under moonlight

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Ghostly translucent sheep jumping in a dark bedroom interior with a bed and moonlit window.

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