SINFONIETTA PARA DOIS INSONES
para duas vozes faladas
[V1 e V2 em penumbra. Longo silêncio.]
A ideia é que duas pessoas, entre sonolentas e insones, transitam entre a consciência e a inconsciência, falando ou sonambulismo. Uma forma eficaz de encenar isso é tratar as duas vozes como linhas melódicas independentes, marcadas em cada fala por V1 e V2, usando indicações de (simultâneo), (pausa), (eco) e (silêncio breve) para sugerir os momentos em que consciência, sonho, memória e sonambulismo se sobrepõem.
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SINFONIETTA PARA DOIS INSONES
para duas vozes faladas

V1:
As ovelhas se tornaram indomáveis.
(pausa)
V2:
Existe um fogo silencioso dentro de mim.
V1:
Já não respeitam cercas.
V2:
Pequeno como uma brasa sob as cinzas do inverno.
(silêncio breve)
V1:
Eu conto:
um,
dois,
três—
V2:
Eu escuto:
uma pulsação,
outra,
mais uma.
V1:
Os cascos tilintam nos vazios da minha cabeça.
V2:
Os alarmes percorrem corredores cansados de osso e veia.
(simultâneo)
V1:
O relógio soa alto demais.
V2:
O corpo se torna barulhento demais.
(silêncio)
V1:
Viro o travesseiro.
V2:
Sento junto ao fogo.
V1:
Frio.
V2:
Brasa.
V1:
Morno.
V2:
Cinza.
(simultâneo, quase sussurrado)
V1:
Procuro o sono.
V2:
Procuro silêncio.
(pausa longa)
V1:
O sono não vem.
V2:
Ainda assim o fogo permanece.
V1:
Ele invade.
V2:
Ele vigia.
V1:
No meio de uma frase—
V2:
No meio de uma pulsação—
V1:
O mundo se desfaz nas bordas.
V2:
Minha mente se solta como um pássaro.
(simultâneo)
V1:
Eu desapareço.
V2:
Eu me torno livre.
(silêncio breve)
V2:
Ensinaram-nos a polir a gaiola.
V1:
Ensinaram-me a contar ovelhas.
V2:
A clarear os dentes.
V1:
A escurecer o quarto.
V2:
A permanecer consumível.
V1:
A permanecer desperto.
(simultâneo)
V1:
Não descansarás.
V2:
Não descansarás.
(pausa)
V2:
Uma civilização sonâmbula.
V1:
Uma mente sonâmbula.
V2:
Correndo para lugar nenhum.
V1:
Pensando para lugar nenhum.
V2:
Chamávamos isso de liberdade.
V1:
Chamava isso de vigília.
(silêncio)
V1:
Antes que a vigésima quinta hora afrouxe seu aperto—
V2:
Antes que o corpo esqueça seu próprio peso—
V1:
Ando por corredores estreitos da minha mente.
V2:
Ando por bairros cheirando a chuva e diesel.
V1:
Sou o vigia.
V2:
Sou o caminhante.
V1:
A cama vira campo de batalha.
V2:
A calçada vira rosário.
V1:
Os pensamentos marcham.
V2:
A bengala marca o tempo.
(simultâneo crescente)
V1:
Mais um minuto.
V2:
Mais um quarteirão.
V1:
Mais um segundo.
V2:
Mais uma manhã.
V1:
Mais um pensamento.
V2:
Mais um poema.
(silêncio)
V2:
Os médicos deram de ombros.
V1:
O relógio não cede.
V2:
Não dá para prometer o amanhã.
V1:
Não dá para acelerar a noite.
V2:
Então caminho.
V1:
Então conto.
(simultâneo)
V2:
Santo tremor.
V1:
Santo silêncio.
V2:
Santo medo.
V1:
Santo cansaço.
V2:
Santo coração.
V1:
Santo sono.
(pausa longa)
V1:
Os ponteiros se desfazem.
V2:
As grades refletem o céu.
V1:
Caio sem fim.
V2:
A porta secreta se abre.
V1:
Ruínas suspensas.
V2:
Países indomados do pensamento.
V1:
Fragmentos verdes translúcidos.
V2:
Uma estranha santidade.
(simultâneo, crescente)
V1:
Batimentos de outros—
V2:
Almas de outros—
V1:
Ainda com medo—
V2:
Ainda com medo—
V1:
Me forçam ao grito.
V2:
Me chamam para dentro.
(súbito silêncio)
V1:
Acordo.
V2:
Permaneço.
V1:
Agarrado à luz do relógio.
V2:
Sentado junto ao fogo.
(silêncio breve)
V1:
Levanto de súbito.
V2:
Esteja aqui agora.
V1:
O coração protesta.
V2:
Esteja aqui agora.
V1:
O quarto retorna.
V2:
Esteja aqui agora.
V1:
Cama.
V2:
Corpo.
V1:
Noite.
V2:
Respiração.
(simultâneo)
V1:
Nada salta da escuridão.
V2:
Nada precisa ser conquistado.
V1:
Desta vez não caio.
V2:
Desta vez não fujo.
V1:
Desço.
V2:
Permaneço.
(pausa)
V2:
Talvez um dia desçamos juntos da esteira.
V1:
Talvez um dia a noite não seja inimiga.
V2:
Talvez escutemos o silêncio.
V1:
Talvez eu atravesse o silêncio.
(simultâneo, muito suave)
V2:
Nunca fomos feitos para nos tornar perfeitos.
V1:
Nunca fomos feitos para permanecer acordados.
V2:
Apenas vivos.
V1:
Apenas adormecidos.
(silêncio longo)
V1:
Fecho os olhos.
V2:
Abro a porta.
V1:
Como quem entra na água.
V2:
Como quem entra em casa.
(simultâneo)
V1:
Além do medo—
V2:
Além da ruptura—
V1:
O sono espera.
V2:
O fogo espera.
V1:
De mãos leves.
V2:
De mãos leves.
[Silêncio.]
[Fim.]
— Adam Donaldson Powell


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