O sono que não desperta 🇧🇷✍🏻

— Adam Donaldson Powell

O sono que não desperta
(inspirado em Sartre — “O Ser e o Nada”)

Eu durmo, e ainda assim estou aqui.
Eu durmo, e ainda assim algo em mim permanece acordado.
Eu durmo nesse espaço sem portas onde o sonho se repete como uma pergunta que perdeu sua resposta.
Eu durmo no sono paradoxal, nesse quarto invisível onde as imagens nascem antes que eu possa reconhecê-las, onde o mundo se constrói atrás das minhas pálpebras fechadas, onde cada segundo ameaça ser o último segundo antes do despertar.

O despertar se aproxima.
O despertar sempre se aproxima.
O despertar se aproxima como uma luz na borda da consciência, como uma mão que procura meu ombro no escuro, como uma voz que pronuncia meu nome sem jamais conseguir chegar até mim.

Mas eu não acordo.

Eu não acordo porque o sonho continua.
Eu não acordo porque o sonho me prende.
Eu não acordo porque, nesse lugar sem manhã, sou ao mesmo tempo aquele que dorme e aquele que observa a si mesmo dormindo.

Sou uma coisa que sonha ser uma coisa.
Sou uma consciência que sonha ser uma consciência.
Sou o intervalo entre aquilo que é e aquilo que pergunta o que é.

Estou aqui, repousando no silêncio do sonho, como uma pedra que não sabe que é uma pedra.

Sou o ser-em-si.

Sou aquilo que simplesmente está.
Sou essa presença maciça, muda, fechada em sua própria existência.
Sou o corpo abandonado na cama, a matéria imóvel, o rosto que ainda não escolheu sua expressão, o sopro que sobe e desce sem perguntar por quê.

Sou o sonho antes da interpretação.
Sou o mundo antes do olhar.
Sou o objeto entre objetos, a existência sem distância, a existência sem pergunta.

Sou aquilo que é.

Mas algo surge.

Algo se rompe.

Algo dentro de mim diz: “eu”.

E esse “eu” cai no sonho como uma pedra lançada em águas profundas.

Já não sou apenas aquilo que é.
Já não sou apenas essa presença presa em sua própria evidência.
Torno-me aquele que procura a si mesmo, aquele que nunca coincide completamente consigo, aquele que olha seu próprio rosto em um espelho que não existe.

Torno-me a pergunta.

Torno-me o ser-para-si.

Sou aquele que nunca é inteiramente aquilo que é.
Sou aquele que se ultrapassa no instante em que tenta se compreender.
Sou aquele que escapa do próprio contorno, aquele que nasce no espaço entre duas ideias, aquele que carrega dentro de si um vazio impossível de preencher.

Sou aquilo que não sou.
Não sou aquilo que sou.

Repito essa frase no meu sonho.
Repito essa frase porque ela me persegue.
Repito essa frase porque ela é uma porta sem maçaneta atrás da qual procuro minha identidade.

Quem sou eu quando ninguém me vê?
Quem sou eu quando meu nome desaparece?
Quem sou eu quando meu rosto se torna apenas mais um rosto entre tantos?

Procuro um centro.
Procuro uma coisa escondida dentro de mim.
Procuro uma verdade que sempre esteve ali, uma essência esperando para ser descoberta.

Mas não encontro nada.

Encontro o vazio.

Encontro o nada.

O nada não é um buraco no mundo.
O nada é aquilo que abre o mundo.
O nada é a distância entre mim e mim mesmo.
O nada é a fissura por onde respiro, a ausência que me torna possível.

Sou livre porque não sou algo fixo.

Sou livre porque posso me perder.
Sou livre porque posso mudar.
Sou livre porque nenhuma definição consegue me aprisionar completamente.

Mas essa liberdade me assusta.

O despertar se aproxima.

O despertar se aproxima como uma sentença.
O despertar se aproxima como o fim de todas as possibilidades sonhadas.
O despertar se aproxima como a prova de que até o sonho deve responder a alguma coisa.

Então eu me invento.

Invento um passado.
Invento um rosto.
Invento uma história que vem antes de mim.

Digo: “Eu sou este.”
Digo: “Eu sou essa pessoa.”
Digo: “Eu sou a soma das minhas lembranças, das minhas feridas, dos meus gestos repetidos.”

Construo uma estátua e me escondo dentro dela.

Agarro meu eu como quem segura uma casa em meio ao incêndio.

Digo: “Eu sou assim.”
Digo: “Eu não posso mudar.”
Digo: “Essa é a minha natureza.”

E o sonho sorri.

Porque eu sei.

Eu sei que minto.
Eu sei que minto quando digo que sou apenas aquilo que fui.
Eu sei que minto quando transformo minhas escolhas em destino.
Eu sei que minto quando escondo minha liberdade atrás de uma imagem imóvel de mim mesmo.

A má-fé chega lentamente.

Ela veste o meu rosto.

Ela entra no meu sonho com os meus próprios olhos.

Ela sussurra:

“Descanse.
Você não escolheu nada.
Você não precisa escolher nada.
Você já está pronto.”

E por um instante eu acredito.

Por um instante volto a ser uma coisa.

Por um instante deixo de ser aquele que cria a si mesmo.

Mas o nada retorna.

O nada sempre retorna.

Ele bate dentro de mim.
Ele abre uma porta que eu queria manter fechada.
Ele me lembra que estou condenado a ser livre, neste sonho e na vigília.

Eu poderia ser outro.

Eu poderia ser aquele que parte.
Eu poderia ser aquele que fica.
Eu poderia ser aquele que recomeça.

Eu poderia ser.

Eu poderia não ser.

E essa possibilidade infinita me arrasta.

Então uma outra presença aparece.

Um olhar.

Um olhar dentro do sonho.

Alguém me observa.

Não sei quem é.

Talvez um desconhecido.
Talvez uma memória.
Talvez uma parte de mim que se separou para me contemplar.

Torno-me visível.

Torno-me objeto diante de outro olhar.

Sou aquele que é visto.

Sou aquele que espera uma definição vinda de fora.

Sou o ser-para-outro.

Procuro nos olhos do outro a prova de que existo.
Procuro no silêncio do outro uma explicação para minha existência.
Procuro no julgamento do outro uma forma estável de mim mesmo.

Diga-me quem sou.

Diga-me quem sou.

Diga-me quem sou.

Mas o outro não responde.

O outro apenas me transforma em imagem.

Torno-me aquilo que acredito ser no olhar dele.

Torno-me meu reflexo.

Torno-me minha máscara.

Torno-me a figura que persegui desde sempre.

Então compreendo.

Nunca sou apenas eu.

Sou também aquele que os outros imaginam.
Sou também aquele que os outros esperam.
Sou também aquele que os outros recusam.

Sou uma pergunta lançada entre consciências.

Sou um encontro impossível.

Sou uma liberdade buscando reconhecimento.

O despertar se aproxima.

O despertar se aproxima.

O despertar se aproxima.

Sempre mais perto.

Mas ele nunca acontece.

Ele permanece suspenso na borda do meu sono como uma promessa sem realização.

Continuo sonhando que vou acordar.
Continuo sonhando que o fim virá.
Continuo sonhando que finalmente sairei deste lugar onde sou prisioneiro da minha própria consciência.

Mas talvez eu não seja prisioneiro.

Talvez este sonho seja minha liberdade.

Talvez esse espaço entre o ser e o nada seja o único lugar onde posso existir.

Eu durmo.

Eu desperto.

Eu sou.

Eu não sou.

Eu me torno.

Eu fujo.

Eu me procuro.

Eu me perco.

Sou o ser que carrega dentro de si a própria falta.

Sou o ser que não espera encontrar uma essência, mas caminha através da ausência de essência.

Sou aquele que sonha em despertar.

Sou aquele que sonha em nunca despertar.

Sou o sono que sabe que é sono.

Sou o despertar que nunca chega.

Sou a pergunta que continua.

Sou a pergunta que continua.

Sou a pergunta que continua.

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