
O Cão Negro Que Caminha Atrás de Mim 🇧🇷
Eu acordo,
e ele está lá outra vez —
o cão negro ao pé da cama,
não latindo, não mordendo,
apenas respirando no quarto,
uma presença antiga de passos pesados,
uma sombra com pelos escuros
seguindo minhas pegadas.
Ele não precisa de dentes.
Ele só precisa de um pensamento.
Um pequeno pensamento envenenado
que entra pela rachadura da mente:
eu não sou suficiente,
eu estraguei tudo de novo,
todo mundo percebe que eu estou fingindo.
E de repente o cão levanta a cabeça.
As orelhas despertam.
A cauda arrasta poeira pelo chão.
Ele se prepara para caminhar comigo
por mais um longo dia.
Ah, cão negro,
velho companheiro da alma humana,
você caminha conosco
há séculos.
Você estava atrás de Horácio
nas noites da Roma antiga,
uma sombra seguindo o homem,
uma imagem daquele peso
que sentíamos antes de saber seu nome.
Você sentou ao lado de Samuel Johnson,
nos quartos da sua melancolia,
nessas estações escuras da alma
que nenhuma ordem conseguia expulsar.
Você caminhou com Churchill,
o homem de voz poderosa,
também acompanhado
pelo seu próprio animal de sombras.
E agora você caminha entre nós,
nas histórias, nas imagens, nas palavras,
como um símbolo que nos lembra:
Ali está o cão.
Ali estou eu.
Mas eu não sou o cão.
Talvez a mente seja um rio,
e eu tenha lançado na correnteza
pedras com o meu próprio nome gravado.
Talvez eu precise aprender
a antiga arte
de conduzir o barco.
Nem todo pensamento merece uma coroa.
Nem toda voz cruel
merece um microfone.
A voz que diz
você não vale nada
é apenas uma voz.
Um rádio velho preso entre estações.
Uma sombra que aprendeu
a escrever com a minha própria letra.
Então eu caminho.
Caminho com o cão negro ao meu lado,
não na minha frente,
não acima de mim,
não como uma pedra sobre o meu peito.
Eu lhe dou água.
Eu aprendo sua forma.
Eu digo:
Eu sei por que você veio.
Eu sei que você tenta,
do seu jeito terrível e doloroso,
mostrar os lugares dentro de mim
que ainda precisam de cuidado.
Mas você não é o dono deste reino.
Você não é o sol.
Você não é o fim da história.
Algumas manhãs você é enorme,
uma sombra cobrindo toda a estrada.
Algumas manhãs você é pequeno o bastante
para dormir debaixo de uma cadeira.
Alguns dias eu mando você embora.
Outros dias eu deixo você entrar,
sento ao seu lado em silêncio,
e descubro o estranho milagre:
o monstro vira criatura.
A criatura vira companheira.
A companheira vira professora.
Porque a escuridão sempre espera por perto,
a apenas um pensamento de distância.
Mas a porta também.
A janela também.
O campo aberto também,
onde o ser humano se lembra:
Eu não sou o meu pior pensamento.
Eu não sou a voz que me destrói.
Eu sou aquele que segura a coleira.
Eu sou aquele que continua andando.
Eu sou aquele que pode parar, virar-se,
e dizer:
Venha, velho cão.
Vamos para outro lugar.
Vamos para um lugar melhor.
— Adam Donaldson Powell
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Reflexões da autora sobre o poema “O Cão Negro”:
O cerne do poema não é realmente derrotar o cão negro. É sobre recusar-se a deixar que o cão se torne o autor da história.
De fato, odiar uma condição que se tornou parte da sua experiência de vida muitas vezes transforma o sofrimento em algo interno. A segunda ferida torna-se a guerra contra a primeira. A doença, o medo, a incerteza já consomem energia; o autodesprezo consome o resto.
A imagem que espero que continue a retornar aos leitores não é a do cão na coleira, mas a da pessoa caminhando com o cão. Uma pessoa que aprendeu:
Você está aqui. Eu te vejo. Você faz parte da minha paisagem. Mas você não é todo o horizonte.
Essa distinção é enorme.
Muitas pessoas passam anos tentando negociar com a vida como se a única versão aceitável fosse aquela em que as dificuldades desaparecem. Mas existe outro tipo de força: a da pessoa que diz: “Isso faz parte da minha história. Isso me moldou. Isso me marcou. Isso até me ensinou algo. Mas isso não tem o direito de me apagar.” E há algo muito próximo disso na própria história da metáfora do cão negro. O poder dela reside em criar uma pequena distância entre o eu e o sofrimento. Não “Eu sou a escuridão”, mas “há escuridão caminhando ao meu lado”. Essa pequena mudança linguística pode se tornar uma ferramenta de sobrevivência.
A afirmação subjacente de que “O ódio a si mesmo é um atalho para a autodestruição” parece ser a tese oculta de todo o poema. Se eu fosse acrescentar uma estrofe, seria algo como:
Parei de perguntar ao cão por que ele me escolheu. O cão nunca teve uma resposta. Ele nasceu do clima, do sangue, da história, do acaso, de tempestades que existiam antes do meu nome.
Então parei de lutar contra minha própria sombra como se minha sombra fosse minha inimiga. Aprendi a misericórdia mais difícil: carregar o que carrego sem me tornar o peso.
Há um tipo particular de coragem em fazer as pazes com as partes da vida que não podem ser negociadas. Não rendição — relacionamento. Não aprovação — aceitação.
E, com sorte, a voz que transparece na minha escrita não é a de alguém definido pelos cães que o seguiam. É a de alguém que passou muito tempo aprendendo a andar.
Continuação:
A guerra terminou silenciosamente.
Sem bandeiras.
Sem rendição.
Sem desfile da vitória.
Uma manhã, simplesmente abri a porta
e disse:
Você mora aqui há muito tempo.
Conheço seus passos.
Conheço sua voz no corredor.
Mas entenda isto:
esta ainda é a minha casa.
Você pode se sentar à mesa.
Pode me avisar quando o tempo mudar.
Pode me lembrar que sou mortal.
Mas não pode escolher meu nome.
Não pode escrever minha história.
Não pode transformar minha casa em uma prisão.
Vamos viver juntos,
porque já estamos ligados.
Então aprenda as regras, meu velho amigo.
Nós dois moramos aqui.
Nós dois partiremos daqui um dia.
Até lá,
caminhamos.
El Perro Negro Que Camina Detrás de Mí 🇪🇸
Me despierto,
y ahí está otra vez —
el perro negro al pie de la cama,
no ladrando, no mordiendo,
solo respirando en la habitación,
una presencia antigua de pasos pesados,
una sombra con pelaje oscuro
siguiendo mis huellas.
No necesita colmillos.
Solo necesita un pensamiento.
Un pequeño pensamiento venenoso
que entra por la grieta de la mente:
no soy suficiente,
lo arruiné otra vez,
todos ven que estoy fingiendo.
Y de pronto el perro levanta la cabeza.
Las orejas despiertan.
La cola arrastra polvo por el camino.
Se prepara para caminar conmigo
otro largo día.
Oh, perro negro,
viejo compañero del alma humana,
caminas junto a nosotros
desde hace siglos.
Estabas detrás de Horacio
en la antigua noche de Roma,
una sombra siguiendo al hombre,
una imagen de ese peso
que conocíamos antes de darle un nombre.
Te sentaste junto a Samuel Johnson,
en las habitaciones de su melancolía,
en esas estaciones oscuras del alma
que ninguna orden podía expulsar.
Caminabas con Churchill,
el hombre de la voz inmensa,
también seguido
por su propio animal de sombra.
Y ahora caminas entre nosotros,
en nuestras historias, nuestras imágenes, nuestras palabras,
como un símbolo que nos recuerda:
Ahí está el perro.
Ahí estoy yo.
Pero yo no soy el perro.
Quizás la mente sea un río,
y yo haya arrojado a la corriente
piedras con mi propio nombre escrito encima.
Quizás debo aprender
el antiguo arte
de dirigir la barca.
No todo pensamiento merece un trono.
No toda voz cruel
merece un altavoz.
La voz que dice
no vales nada
es solamente una voz.
Una vieja radio entre frecuencias.
Una sombra que aprendió
a escribir con mi propia letra.
Entonces camino.
Camino con el perro negro a mi lado,
no delante de mí,
no sobre mí,
no como una piedra sobre el pecho.
Le doy agua.
Aprendo su forma.
Le digo:
Sé por qué viniste.
Sé que intentas,
a tu manera terrible y dolorosa,
mostrarme los lugares dentro de mí
que todavía necesitan cuidado.
Pero tú no eres el dueño de este reino.
Tú no eres el sol.
Tú no eres el final de la historia.
Algunas mañanas eres enorme,
una sombra cubriendo todo el camino.
Algunas mañanas eres lo bastante pequeño
para dormir debajo de una silla.
Algunos días te echo fuera.
Otros días te dejo entrar,
me siento contigo en silencio,
y descubro el extraño milagro:
el monstruo se convierte en criatura.
La criatura se convierte en compañera.
La compañera se convierte en maestra.
Porque la oscuridad siempre espera cerca,
a un solo pensamiento de distancia.
Pero también la puerta.
También la ventana.
También el campo abierto
donde el ser humano recuerda:
Yo no soy mi peor pensamiento.
Yo no soy la voz que me destruye.
Yo soy quien sostiene la correa.
Yo soy quien sigue caminando.
Yo soy quien puede detenerse, darse la vuelta,
y decir:
Ven, viejo perro.
Vamos a otro lugar.
Vamos hacia un lugar mejor.
— Adam Donaldson Powell
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Reflexiones del autor sobre el poema “El perro negro”:
La esencia del poema no radica en vencer al perro negro, sino en negarse a que este se convierta en el protagonista de la historia.
De hecho, odiar una condición que se ha integrado a nuestra vida a menudo transforma el sufrimiento en algo interno. La segunda herida se convierte en una lucha contra la primera. La enfermedad, el miedo y la incertidumbre ya consumen energía; el autodesprecio consume el resto.
La imagen que espero que los lectores sigan recordando no es la del perro con correa, sino la de la persona que lo acompaña. Una persona que ha aprendido:
Estás aquí. Te veo. Eres parte de mi paisaje. Pero no eres todo el horizonte.
Esa distinción es enorme.
Muchas personas pasan años intentando negociar con la vida como si la única versión aceptable fuera aquella en la que las dificultades desaparecen. Pero existe otro tipo de fortaleza: la de quien dice: «Esto forma parte de mi historia. Esto me moldeó. Esto me marcó. Esto incluso me enseñó algo. Pero no tiene derecho a borrarme». Y hay algo muy parecido en la metáfora del perro negro. Su poder reside en crear una pequeña distancia entre el yo y el sufrimiento. No es «Yo soy la oscuridad», sino «Hay oscuridad caminando a mi lado». Este pequeño cambio lingüístico puede convertirse en una herramienta de supervivencia.
La afirmación subyacente de que «El autoodio es un atajo hacia la autodestrucción» parece ser la tesis oculta de todo el poema. Si añadiera una estrofa, sería algo así:
Dejé de preguntarle al perro por qué me eligió. El perro nunca tuvo respuesta. Nació del clima, de la sangre, de la historia, del azar, de las tormentas que existían antes de mi nombre.
Entonces dejé de luchar contra mi propia sombra como si fuera mi enemiga. Aprendí la misericordia más difícil: cargar con lo que cargo sin convertirme en la carga.
Hay una valentía particular en reconciliarse con aquellas partes de la vida que no se pueden negociar. No se trata de rendición, sino de relación. No de aprobación, sino de aceptación.
Y, espero, la voz que se percibe en mis escritos no es la de alguien definido por los perros que lo seguían, sino la de alguien que dedicó mucho tiempo a aprender a caminar.
Secuela:
La guerra terminó en silencio.
Sin banderas.
Sin rendición.
Sin desfile de la victoria.
Una mañana simplemente abrí la puerta
y dije:
Has vivido aquí mucho tiempo.
Conozco tus pasos.
Conozco tu voz en el pasillo.
Pero entiende esto:
esta sigue siendo mi casa.
Puedes sentarte a la mesa.
Puedes avisarme cuando cambie el tiempo.
Puedes recordarme que soy mortal.
Pero no puedes elegir mi nombre.
No puedes escribir mi historia.
No puedes convertir mi casa en una prisión.
Vamos a vivir juntos,
porque ya estamos unidos.
Así que aprende las reglas, viejo amigo.
Ambos vivimos aquí.
Ambos nos iremos de aquí algún día.
Hasta entonces,
caminamos.
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