Adam (72): “Nunca é tarde demais para ficar melhor” 🇧🇷
Adam Donaldson Powell é artista, escritor e um dos ativistas de HIV mais conhecidos da Noruega. Ele lutou pelos direitos das pessoas homossexuais e por pessoas que foram marginalizadas pela sociedade. Mas a batalha mais importante de sua vida foi uma que ele só enfrentou mais tarde.
“Passei muitos anos lutando por todos os outros. Demorou muito mais para aprender a lutar por mim mesmo”, diz ele.
Hoje, o morador de Oslo, de 72 anos, é membro da Mental Health Norway. Ao longo de uma longa vida, ele vivenciou violência, abusos, doenças, estigma e exclusão social. Ainda assim, o que ele quer falar é sobre esperança e abertura.
“O silêncio pode nos deixar doentes. Isso é tão verdadeiro hoje quanto era durante a epidemia de AIDS.”
Cresceu em meio à violência
A vida de Adam começou de forma dramática. Ele nasceu em Buffalo, no estado de Nova York, em 1954. Quando ainda era bebê, sua avó levou Adam e sua mãe para Ohio enquanto seu pai estava trabalhando. Adam nunca mais viu o pai.
Sua mãe se casou novamente com um homem que construiu carreira na Força Aérea dos Estados Unidos. A casa era marcada por conflitos e violência.
“Fui espancado durante grande parte da minha infância. Quando você cresce dessa maneira, aprende a estar sempre em alerta.”
Ele se descreve como uma criança que precisou se tornar adulta cedo demais.
“Quando os adultos ao seu redor não protegem você, você começa a assumir responsabilidades muito antes da hora. Aprendi cedo a cuidar de mim mesmo.”
Aos 16 anos, saiu de casa e começou a universidade.
“Eu era crítico da sociedade, ativista contra a Guerra do Vietnã, uma pessoa queer e interessado em arte, idiomas e literatura. Eu nunca me encaixei completamente.”
Adam encontrou cedo uma motivação para lutar contra a injustiça.
“Quando você mesmo já experimentou a sensação de impotência, passa a querer que outras pessoas não tenham que passar pela mesma coisa.”
O “garoto-propaganda” de toda a Noruega
Quando Adam se mudou para a Noruega em 1987, não sabia que logo se tornaria um dos ativistas de HIV mais conhecidos do país.
“Naquela época, o HIV era cercado por medo, ignorância e fortes preconceitos. Muitas pessoas escondiam seu diagnóstico por medo de perder o emprego, amigos ou família.”
Adam escolheu um caminho diferente.
Um momento decisivo aconteceu quando participou de uma reportagem de televisão junto com outras pessoas vivendo com HIV. Os rostos estavam cobertos e as vozes distorcidas. Ninguém queria ser reconhecido.
Durante a transmissão, ele tomou uma decisão.
“Eu pensei: ‘Quer saber? Eu não vou fazer isso. Eu assumo quem eu sou.’”
Ele pediu para removerem a máscara e apareceu na televisão nacional com seu nome completo e seu rosto. Isso mudaria sua vida.
“Depois disso, as pessoas me reconheciam em todos os lugares. Na rua. No trabalho. Na mídia. Eu me tornei um ‘garoto-propaganda’ da causa do HIV na Noruega.”
Nos anos seguintes, representou a Noruega em conferências internacionais sobre AIDS, participou da primeira grande conferência da UNAIDS organizada sob a coordenação da ONU em Nova York e colaborou com autoridades de saúde e políticos no combate ao estigma e à discriminação.
Estigma, até mesmo na comunidade queer
Mas a atenção também teve um preço alto.
“Eu sofri discriminação tanto no ambiente de trabalho quanto nos círculos sociais. Até mesmo na comunidade queer. As pessoas podiam sussurrar: ‘Fique longe dele, ele tem HIV.’”
Ele balança a cabeça.
“Uma das coisas mais dolorosas foi que também existia estigma entre pessoas que sabiam o que era ser estigmatizado.”
Ele também encontrou preconceito no sistema de saúde, onde o medo do HIV ainda era muito grande. Em uma ocasião, Adam estava pronto para uma cirurgia quando o cirurgião descobriu que ele era HIV positivo.
“O diagnóstico estava no prontuário, mas era evidente que o cirurgião não tinha lido. Ele ficou furioso e disse que eu havia colocado toda a equipe cirúrgica em risco. Pediu que eu fosse embora.”
Adam entrou com uma reclamação, mas nunca sentiu que alguém assumiu a responsabilidade. No mesmo período, tentaram demiti-lo e expulsá-lo do prédio onde morava.
“Isso mostra o quanto havia medo e ignorância em torno do HIV.”
“Eu sempre perdoo”
Embora a infância tivesse acabado, os padrões não tinham acabado. Já adulto, Adam se envolveu várias vezes em relacionamentos violentos.
“Eu vivi violência física e psicológica, e várias vezes temi pela minha própria vida. Demorou muitos anos até eu entender o quanto aquilo era realmente grave.”
Somente mais tarde na vida começou a perceber a ligação entre as experiências da infância e os relacionamentos nos quais acabou entrando.
“Quando você cresce com violência, isso se torna o normal. Você aprende a tolerar coisas que nunca deveria ter precisado tolerar. Seus limites vão mudando aos poucos sem que você perceba.”
Ao longo da vida, ele também viu como a dor psicológica pode afetar as pessoas de diferentes maneiras. Uma das coisas mais dolorosas que viveu foi quando seu parceiro, que por muito tempo havia sofrido com problemas de saúde mental, tirou a própria vida.
“Eu ainda reajo fortemente a atitudes que descrevem o suicídio como covardia. Pessoas que sofrem dessa forma precisam de apoio e compreensão, não de julgamento.”
Mesmo depois de muitos anos de violência, discriminação e perdas, Adam tenta encontrar as pessoas com compreensão.
“Muitas pessoas vieram falar comigo depois e pedir desculpas por coisas que disseram ou fizeram. Eu sempre perdoo.”
Ele faz uma pausa.
“Mas o que mais significa para mim é quando alguém diz: ‘Eu subestimei você.’ Então penso que essa pessoa realmente aprendeu algo.”
A criatividade como uma linha de vida
Ao longo de uma vida marcada tanto por dificuldades quanto por conquistas, Adam sempre voltou à mesma coisa: a arte.
“Muitas pessoas pensam que a arte é uma fuga da realidade. Para mim, é o contrário. É uma forma de mergulhar mais profundamente nela.”
Por meio da escrita, da música e das artes visuais, ele explorou pensamentos, sentimentos e experiências que seriam difíceis de colocar em palavras. Isso resultou em vários livros, coletâneas de poesia e pinturas.
“Isso me dá a possibilidade de ser honesto comigo mesmo.”
A criatividade também se tornou parte de seu ativismo. Durante a epidemia de AIDS, Adam queria mostrar as pessoas por trás dos diagnósticos. Em uma ocasião do Dia Mundial da AIDS, organizou uma grande exposição de arte que reuniu artistas, ativistas e o público.
“Naquela época, grande parte da conversa sobre HIV era sobre medo, doença e morte. Eu queria mostrar que também tínhamos histórias, experiências, esperança e alegria de criar.”
A arte também foi uma ferramenta para compreender o que viveu e criar diálogo com outras pessoas. Hoje, Adam mantém o blog osoparavos.com, onde publica textos em vários idiomas.
“O objetivo é oferecer a pessoas interessadas em idiomas e poliglotas acesso à literatura, ensaios, poemas, música e conhecimento em diferentes línguas. Muitos textos falam sobre exclusão social, saúde mental e outros desafios da sociedade pelos quais me interessei durante toda a vida. Essa é minha forma de ativismo hoje.”
“Tudo começa com nossos pensamentos”
Adam fez terapia várias vezes ao longo da vida. Mas mesmo na velhice descobriu que ainda havia partes de sua própria história que ele não compreendia completamente.
“Nunca é tarde demais”, diz ele sorrindo.
“Descobri que muitos dos problemas com os quais eu ainda lutava tinham raízes que voltavam até a infância. Por meio da terapia, percebi a ligação entre meus pensamentos, sentimentos e ações.”
Ele acredita que as pessoas precisam ter mais consciência sobre seus próprios padrões de pensamento.
“Tudo começa com nossos pensamentos. Os pensamentos influenciam o que vemos, o que dizemos e como agimos. A grande arte é tentar transformar uma forma de pensar que prejudica a nós mesmos e aos outros em algo mais acolhedor.”
Ele acredita que muitas das respostas que procuramos já estão dentro de nós, desde que tenhamos coragem de olhar para dentro. Ao mesmo tempo, ressalta que a autoconsciência sozinha nem sempre é suficiente.
“Às vezes precisamos nos afastar fisicamente de pessoas ou situações que nos prejudicam, seja em relacionamentos violentos, ambientes destrutivos ou padrões antigos que nos mantêm presos. Talvez seja só então que conseguimos enxergar, compreender e mudar”, diz ele.
“A mudança mais importante acontece quando nos tornamos conscientes dos nossos padrões, não apenas das nossas ações.”
“Silêncio = Morte”
Hoje, Adam vive com vários desafios de saúde após doenças graves e grandes cirurgias. Depois de coágulos sanguíneos e tratamentos intensivos, precisou aprender a viver com um corpo que já não funciona como antes.
“Estive perto da morte várias vezes na vida. Isso muda a sua perspectiva.”
Ele acredita que as pessoas podem encontrar força dentro de si mesmas, mesmo quando a vida está em seu momento mais difícil.
“Todos nós temos coisas difíceis na vida. A questão não é se vamos enfrentar dificuldades, mas como vamos enfrentá-las. Não se apegue a coisas que já não representam quem você é ou que não fazem bem a você — elas apenas deixam você doente.”
Ele acredita que precisamos ter coragem para fazer perguntas, buscar ajuda e falar sobre aquilo que dói.
“Muitas vezes gastamos muita energia escondendo as partes mais difíceis das nossas vidas. Mas é quando começamos a falar sobre elas que as coisas podem mudar.”
Ele lembra um antigo slogan da epidemia de AIDS: Silêncio = Morte.
“Naquela época, era sobre HIV. Para mim, hoje, é sobre tudo aquilo que não temos coragem de falar. O silêncio não resolve nada.”
Ele sorri.
“Uma vida sem dificuldades talvez não fosse desafiadora o suficiente? Nunca é tarde demais para ficar melhor. Talvez essa seja a coisa mais importante que aprendi.”
— Mental Helse, Emilie Gjengedal Vatnøy
🇧🇷
Mental Helse (Noruega) é uma organização nacional de membros que trabalha para promover maior abertura, prevenir desafios relacionados à saúde mental e melhorar a saúde mental.
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Adam escreve poemas, e o poema abaixo fala sobre a depressão, sobre como evitá-la e como lidar com a depressão e os pensamentos sombrios.
O cachorro preto que caminha atrás de mim
Eu acordo,
e lá está ele novamente —
o cachorro preto aos pés da cama,
não latindo, não mordendo,
apenas respirando no escuro,
uma velha presença com passos pesados,
uma sombra com pelo
que segue os meus rastros.
Ele não precisa de dentes.
Ele precisa apenas de um pensamento.
Um pequeno pensamento venenoso
que se esgueira pela fresta da mente:
você não é suficiente,
você estragou tudo de novo,
todos veem que você está apenas fingindo.
E de repente o cachorro levanta a cabeça.
As orelhas despertam.
A cauda arrasta-se pela poeira.
Ele se prepara para me acompanhar
por mais um longo dia.
Ah, cachorro preto,
antigo companheiro da alma humana,
você caminhou ao nosso lado
por centenas de anos.
Você andou atrás de Horácio na Roma antiga,
uma sombra escura seguindo o ser humano,
uma imagem de algo pesado
que sentimos antes mesmo de saber seu nome.
Você esteve nos aposentos de Samuel Johnson
quando ele sentiu a escuridão dentro de si,
quando a melancolia chegou como um inverno
que ninguém poderia simplesmente mandar embora.
Você atravessou os corredores do poder com Churchill,
o grande homem de voz forte,
que também carregava seu próprio cachorro de escuridão
atrás de si.
E agora você caminha entre nós,
nas nossas telas,
em desenhos e histórias,
como uma imagem que nos lembra:
Lá está o cachorro.
Lá estou eu.
Mas eu não sou o cachorro.
Talvez a mente seja um rio,
e eu tenha jogado pedras na correnteza
com o meu próprio nome escrito nelas.
Talvez eu precise aprender
a antiga arte
de conduzir o barco.
Nem todo pensamento merece um trono de rei.
Nem toda voz sombria
merece um microfone.
A voz que diz
que você não tem valor
é apenas uma voz.
Um rádio antigo entre estações.
Uma sombra que aprendeu
a escrever com a minha própria caligrafia.
Então eu caminho.
Eu caminho com o cachorro preto ao meu lado,
não à minha frente,
não acima de mim,
não como uma pedra sobre o peito.
Eu lhe dou água.
Eu aprendo a conhecer sua forma.
Eu digo:
Eu sei por que você veio.
Eu sei que você tenta,
da sua maneira pesada e dolorosa,
mostrar-me os lugares dentro de mim
que ainda doem.
Mas você não é dono deste país.
Você não é o rei aqui.
Você não é o sol.
Você não é o fim da história.
Algumas manhãs você é enorme,
uma sombra que se estende por todo o caminho.
Algumas manhãs você é pequeno o bastante
para ficar deitado debaixo de uma cadeira.
Em alguns dias eu expulso você.
Em outros dias eu deixo você entrar,
sento-me ao seu lado,
e descubro o estranho milagre:
O monstro se torna um animal.
O animal se torna um amigo.
O amigo se torna uma lição.
Pois a escuridão está sempre por perto,
a apenas um pensamento de distância.
Mas a porta também está.
A janela também está.
O campo selvagem também está,
onde o ser humano se lembra:
Eu não sou o meu pior pensamento.
Eu não sou a voz que me destrói.
Eu sou aquele que segura a coleira.
Eu sou aquele que continua caminhando.
Eu sou aquele que pode parar, virar-se,
e dizer:
Venha, velho cachorro.
Nós vamos para outro lugar.
Um lugar melhor.
— Adam Donaldson Powell

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