— Adam Donaldson Powell

Não É Meme, É Minha Cara
Mano, presta atenção.
Antes de apontar a câmera, aponta a consciência.
Porque tem gente fazendo selfie com meu rosto,
mas nunca perguntou minha vivência.
Puxa o olho pra cima, faz pose de engraçado,
posta na internet achando que tá liberado.
“Relaxa, é zoeira”, “não foi por maldade”…
Mas quem nunca foi alvo não entende a pancada de verdade.
Meu olho não é fantasia.
Minha cara não é figurino.
Minha história não cabe em piada de menino.
“Ô japa”, “ô China”, “ô coreano”, “xingling”…
Cês chamam de apelido, eu escuto como limite.
Porque quando meu nome vira detalhe,
meu rosto vira etiqueta,
e minha pessoa some na sua caricatura barata.
“Ah, mas chamam alemão, chamam galego também!”
Só que vocês esquecem de olhar além.
Uma coisa é falar de origem, de família, de raiz.
Outra é usar a origem pra dizer quem eu sou e o que eu fiz.
Porque o branco estrangeiro muitas vezes vira história:
“olha o europeu”, “olha a descendência”, “que trajetória”.
Mas o asiático vira personagem de meme,
um monte de estereótipo que ninguém teme.
E aí vem o silêncio…
Aquele silêncio covarde da sala inteira.
Quando a piada bate, mas ninguém interfere.
Quando a agressão é pequena demais pra virar notícia,
mas grande o bastante pra marcar uma vida.
Na quebrada a gente aprende cedo:
respeito não é favor, é fundamento.
Você pode falar minha origem,
mas não pode roubar meu pertencimento.
Eu não sou “o japonês da sala”.
Não sou “o chinês do mercado”.
Não sou uma cara aleatória que você viu e encaixou no seu quadrado.
Eu tenho nome.
Tenho sonho.
Tenho família.
Tenho corre.
Tenho história antes de você abrir a boca e fazer graça.
Então antes de rir pra câmera, pensa:
quem tá virando piada nessa cena?
Porque enquanto uns postam e esquecem,
outros vivem carregando a lembrança.
Minha cara não é meme.
Meu olho não é zoação.
Meu povo não é personagem da sua diversão.
Respeita o rosto que você vê.
Porque por trás de cada rosto tem alguém tentando viver.

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