— Adam Donaldson Powell

Sobre escolher o idioma certo para escrever poesia ✍🏻🇧🇷
Aprender a não forçar o rio
Há uma lição que venho aprendendo aos poucos: não se força um rio. Talvez o mesmo valha para a poesia.
Ontem eu escrevi:
“Quero encontrar os melhores idiomas e estilos para aquilo que desejo escrever.”
Hoje, porém, suspeito que a questão seja mais delicada.
Talvez não seja verdade que eu escolho a língua do poema.
Talvez seja o contrário:
é o poema que me revela em que língua deseja existir.
À primeira vista, as duas afirmações parecem dizer a mesma coisa.
Mas pertencem a maneiras completamente diferentes de compreender a criação.
Na primeira, a língua é uma escolha.
Na segunda, ela é uma descoberta.
George Steiner dedicou boa parte de sua obra a investigar o que se ganha e o que se perde em cada tradução. Milan Kundera escreveu sobre a transformação inevitável dos romances quando atravessam outras línguas. Seamus Heaney viveu dentro do inglês sem jamais deixar de escutar as cadências do irlandês.
Mas talvez a pergunta seja outra.
E se as línguas não forem apenas maneiras diferentes de dizer a mesma coisa?
E se cada língua for, antes de tudo, uma maneira diferente de descobrir aquilo que ainda nem sabíamos que queríamos dizer?
Como um poema escolhe sua própria língua?
O que mais me interessa é a ideia de adequação.
Encontrar a língua certa para um determinado pensamento.
Arrisco uma hipótese:
As línguas não são recipientes intercambiáveis para as ideias.
São instrumentos diferentes.
Cada uma ilumina certos aspectos da experiência com mais naturalidade do que outras.
Repare no verbo.
Não digo expressar.
Digo revelar.
O poema não nasce pronto para depois ser vestido por uma língua.
A língua participa do próprio nascimento do poema.
Quando um poema escolhe sua língua
I. A tradução não é o ponto de partida.
Durante muito tempo imaginei que escrevia poemas e, depois, os traduzia.
Com o passar dos anos, fui percebendo outra coisa.
Alguns poemas resistiam à tradução.
Não porque lhes faltassem equivalências vocabulares.
Mas porque o próprio pensamento havia nascido dentro de outra língua.
II. Cada língua possui sua própria gravidade.
Costuma-se dizer que as línguas são ferramentas.
Ou lentes.
Prefiro imaginá-las como paisagens.
Porque uma paisagem muda a forma como caminhamos.
O inglês convida ao avanço.
O francês procura o equilíbrio.
O alemão constrói.
O espanhol gesticula.
O nynorsk escuta.
Nada disso constitui uma regra.
São inclinações.
Tendências poéticas.
III. O vocabulário é apenas a superfície.
É pelo vocabulário que muitos estudos sobre tradução começam.
Eu gostaria de começar exatamente onde eles terminam.
As diferenças decisivas não estão nas palavras.
Estão naquilo para o qual cada língua dirige naturalmente nossa atenção.
Vale perguntar:
O que esta língua percebe?
O que ela deixa escapar?
Que silêncios lhe parecem naturais?
IV. Os verbos contam a história de uma civilização.
Observe os verbos do seu poema.
Depois compare-os entre diferentes línguas.
Não como filólogo.
Como poeta.
Que verbos predominam no inglês?
No italiano?
No francês?
No espanhol?
No português?
No nynorsk?
Talvez eles revelem que tipo de experiência cada língua convida a imaginar.
V. Todo poema é um ecossistema.
Nenhuma metáfora existe sozinha.
Ela sempre vive cercada por outras imagens.
Um rio, na poesia norueguesa, encontra montanhas.
Na poesia neerlandesa, encontra o comércio.
Na poesia árabe, encontra o deserto.
É o mesmo rio.
Mas não é a mesma imaginação.
VI. Algumas ideias possuem língua materna.
Não porque sejam intraduzíveis.
Mas porque determinada língua parece pensá-las antes das outras.
Meu poema recente sobre “manutenção” pertence ao nynorsk.
Não por falta de palavras em inglês.
Mas porque o nynorsk já abriga uma cultura do cuidar, do sustentar e do conservar.
Isso muda tudo.
Na mesma sequência de poemas aparece o título «Det som held.»
A tradução mais imediata para o inglês seria What Holds.
Está correta.
Mas não alcança toda a espessura de held.
A palavra pode significar sustentar, manter unido, resistir ao tempo, preservar, permanecer fiel, conter, guardar.
É uma palavra que carrega peso.
O mesmo acontece com å bere.
Ela nunca significa apenas carregar.
Pode ser carregar uma criança.
Suportar um luto.
Assumir uma responsabilidade.
Resistir à dor.
Dar frutos.
Ou até possuir significado.
O inglês precisa de uma palavra diferente para cada uma dessas experiências.
O nynorsk permite que todas elas permaneçam em ressonância.
É justamente dessa ressonância que a poesia nasce.
VII. Traduzir é um ato de hospitalidade.
Não de conquista.
Não de posse.
Hospitalidade.
Recebemos um visitante em outra casa.
Talvez seja preciso mover alguns móveis.
Talvez certas janelas permaneçam abertas exatamente onde sempre estiveram.
O importante é que o visitante se sinta acolhido.
E, ainda assim, continue sendo ele mesmo.
VIII. Às vezes, a melhor tradução é o silêncio.
Há poemas que pedem para permanecer algum tempo em sua língua de origem.
Talvez devam ser traduzidos mais tarde.
Talvez nunca.
Talvez o primeiro encontro do leitor deva acontecer justamente com o texto original.
Numa época que exige acesso imediato a tudo, essa talvez seja uma ideia profundamente contracultural.
Conclusão
Essas reflexões ainda estão em formação.
Mas já apontam para uma mudança de método.
Se um poema realmente escolhe a língua em que deseja existir, então o trabalho do poeta deixa de ser apenas escrever.
Passa a ser escutar.
Escutar o ritmo próprio de cada idioma.
Reconhecer as afinidades entre pensamento e linguagem.
Ampliar continuamente o domínio do vocabulário e das possibilidades expressivas de cada língua.
Talvez escrever poesia seja, acima de tudo, aprender a ouvir antes de escolher.
E, como acontece com um rio, compreender que algumas direções não podem ser impostas — apenas acompanhadas.

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