a tristeza de saturno 🇧🇷✍🏻🌴

um poema meu, reescrito ao estilo de Cruz e Sousa

A golden carousel with glowing lights and mythical horses in space surrounded by galaxies

A TRISTEZA DE SATURNO

Quando Curitiba, de joelhos,
recebe a extrema comunhão dos crepúsculos,

quando a Lua,
branca hóstia suspensa
sobre as torres da névoa,

e o Sol,
purpureado de martírios,
desfaz em cinzas de ouro
a pompa derradeira do Outono,

ergue-se,
das funduras onde amadurecem
os frios da Eternidade,

uma Respiração.

Não é vento.

Não é noite.

Não é sombra.

É uma Respiração imensa,
mineral,
silenciosa,

que lentamente
vai enchendo o mundo.

Primeiro pesa
sobre os pinheiros imóveis.

Depois
sobre os telhados.

Depois
sobre os sinos.

Depois
sobre o sangue.

Então as almas,
como taças excessivamente cheias,
começam a tremer.

Ninguém sabe.

Mas todos recordam.

Recordam uma Dor
que nunca viveram.

Uma saudade
anterior ao nascimento.

Uma fadiga
mais antiga
que os próprios astros.

Os homens
olham os campos.

A terra permanece fértil.

Entretanto,

já lhes parece
coberta
de colheitas mortas.

As sementes
adquirem a palidez
das coisas destinadas
ao esquecimento.

As mulheres
interrompem
o humilde sacramento
do pão cotidiano.

Apertam os filhos
contra o peito,

não por medo,

mas por uma ternura
subitamente ferida
pela passagem
de um Invisível.

Até as crianças
silenciam.

Até os brinquedos
parecem compreender.

Até as janelas,
embaciadas,
guardam qualquer coisa
de olhos humanos.

E os relógios…

Ó pacientes escultores
da ruína!

Continuam.

Mas cada minuto
já não pesa
como minuto.

Pesa

como século.

É Saturno.

Não o planeta.

Não o deus.

Mas a Substância.

A lenta Substância
com que o Universo
escreve
o amadurecimento
de todas as lágrimas.

Onde Ele passa,

o ferro aprende
a linguagem da ferrugem;

a madeira,
a dos vermes;

a carne,
a da cinza;

e o coração,
a do silêncio.

Então começa
a grande Liturgia.

As colheitas falham.

Os rios esquecem
o próprio caminho.

Os enfermos
deitam-se
como árvores vencidas
pela neve invisível.

As mães
vestem de branco
o pressentimento.

Os velhos
olham demoradamente
a claridade das janelas,

como quem escuta,
ao longe,

um chamado.

Os sonhos—

esses animais luminosos
que bebem nas fontes
da esperança—

recolhem as asas.

Fecham os olhos.

Dormem.

E dormindo,

morrem.

Tudo sem violência.

Tudo sem clamor.

Como morrem
os perfumes
ao romper da manhã.

Então o grande Carrossel
das Horas
prossegue.

Gira.

Não porque exista alegria.

Mas porque a Fatalidade
também possui
a sua música.

E dessa música,

gota por gota,

escorre

o Blues de Saturno.

Não possui refrão.

Possui retorno.

Volta sempre.

Com outra voz.

Outro inverno.

Outro nome.

Outra sepultura.

Mas é sempre
a mesma canção mineral,

a mesma cantiga
que embala
os impérios
e os mendigos,

os recém-nascidos
e os moribundos,

os amantes
e os órfãos,

com igual
e incorruptível
melancolia.

Porque o Universo,

na sua majestade obscura,

não conhece
a piedade.

Conhece apenas

o ritmo.

E Saturno,

velho organista
das catedrais do Tempo,

continua,

sozinho,

a tocar.

— Adam Donaldson Powell

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City skyline at sunset with a large Saturn planet and rings in the sky

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