A casa sabia antes de mim 🇧🇷✍🏻

— Adam Donaldson Powell

Um poema com ecos das características amplas de Adélia Prado — a espiritualidade do cotidiano, a intimidade da linguagem, a força do corpo e da vida doméstica — sem reproduzir sua voz de maneira muito próxima ou imitar trechos característicos:

Suitcase with a tag outside a blue door numbered 14B, with an illuminated entrance interior and outdoor lantern at dusk

A casa sabia antes de mim.

A chaleira cantava
como quem reza por um milagre pequeno,
e eu respondia ao vapor
com mãos acostumadas
a pedir licença ao próprio pulso.

Durante anos
confundi o medo com obediência.
Há ervas que perfumam a cozinha,
há venenos que aprendem
o cheiro do café.

Ele chegava pesado,
carregando a noite nos ombros
e o álcool nos olhos.
Sua palavra era um cadeado,
sua raiva, um animal sem nome.
Chamava de amor
o gesto de reduzir meu mundo
ao tamanho da sombra dele.

Eu me culpava.

Quem rega uma planta seca
acredita, por teimosia,
que a água vencerá a pedra.
Eu fazia da esperança
um pano torcido.
Espremia o dia,
estendia o silêncio,
costurava desculpas
como quem remenda
uma roupa já sem tecido.

Dizia:
talvez amanhã.
Talvez, se eu falar mais baixo.
Talvez, se Deus me emprestar
outra espécie de paciência.

Mas Deus,
que conhece o barro
e também o fogo,
não me queria de joelhos
diante de um altar de violência.

Então vi.

Não foi um relâmpago.
Foi a colher sobre a mesa,
o vidro da janela,
o pássaro insistindo
na manhã que ninguém conseguia impedir.

Vi que meu corpo
não nascera para corrente.
Que minha voz
não era criada de ninguém.
Que o amor
não pede o sacrifício
daquilo que em nós respira.

Chorei.

Não de fraqueza,
mas como a terra
quando recebe a primeira chuva
depois de um verão comprido.
A culpa saiu de mim
em pequenos rios escuros,
levando consigo
nomes que nunca me serviram.

Quando arrumei a mala,
o mundo pareceu tremer.
Não era o mundo.
Era o cadeado
descobrindo que enferrujara.

Abri a porta.

Levei poucas roupas,
algumas fotografias,
uma xícara lascada,
e a coragem,
que não veio inteira,
veio suficiente.

Hoje ainda tenho cicatrizes.
Elas não cantam vitória;
cantam verdade.

Acendo a luz da cozinha.
A chaleira ferve.
O pão cresce.
A tarde pousa
como um pássaro manso na janela.

E eu compreendo,
com uma serenidade
que custou uma vida:

há divórcios
que são a forma mais humilde
e mais alta
de dizer sim
à própria alma.

— Adam Donaldson Powell 

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Woman sitting at kitchen table, crying with hand on forehead

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