— Adam Donaldson Powell
Um poema com ecos das características amplas de Adélia Prado — a espiritualidade do cotidiano, a intimidade da linguagem, a força do corpo e da vida doméstica — sem reproduzir sua voz de maneira muito próxima ou imitar trechos característicos:

A casa sabia antes de mim.
A chaleira cantava
como quem reza por um milagre pequeno,
e eu respondia ao vapor
com mãos acostumadas
a pedir licença ao próprio pulso.
Durante anos
confundi o medo com obediência.
Há ervas que perfumam a cozinha,
há venenos que aprendem
o cheiro do café.
Ele chegava pesado,
carregando a noite nos ombros
e o álcool nos olhos.
Sua palavra era um cadeado,
sua raiva, um animal sem nome.
Chamava de amor
o gesto de reduzir meu mundo
ao tamanho da sombra dele.
Eu me culpava.
Quem rega uma planta seca
acredita, por teimosia,
que a água vencerá a pedra.
Eu fazia da esperança
um pano torcido.
Espremia o dia,
estendia o silêncio,
costurava desculpas
como quem remenda
uma roupa já sem tecido.
Dizia:
talvez amanhã.
Talvez, se eu falar mais baixo.
Talvez, se Deus me emprestar
outra espécie de paciência.
Mas Deus,
que conhece o barro
e também o fogo,
não me queria de joelhos
diante de um altar de violência.
Então vi.
Não foi um relâmpago.
Foi a colher sobre a mesa,
o vidro da janela,
o pássaro insistindo
na manhã que ninguém conseguia impedir.
Vi que meu corpo
não nascera para corrente.
Que minha voz
não era criada de ninguém.
Que o amor
não pede o sacrifício
daquilo que em nós respira.
Chorei.
Não de fraqueza,
mas como a terra
quando recebe a primeira chuva
depois de um verão comprido.
A culpa saiu de mim
em pequenos rios escuros,
levando consigo
nomes que nunca me serviram.
Quando arrumei a mala,
o mundo pareceu tremer.
Não era o mundo.
Era o cadeado
descobrindo que enferrujara.
Abri a porta.
Levei poucas roupas,
algumas fotografias,
uma xícara lascada,
e a coragem,
que não veio inteira,
veio suficiente.
Hoje ainda tenho cicatrizes.
Elas não cantam vitória;
cantam verdade.
Acendo a luz da cozinha.
A chaleira ferve.
O pão cresce.
A tarde pousa
como um pássaro manso na janela.
E eu compreendo,
com uma serenidade
que custou uma vida:
há divórcios
que são a forma mais humilde
e mais alta
de dizer sim
à própria alma.
— Adam Donaldson Powell

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