— Adam Donaldson Powell
O chão é a única mesa
que ainda acredita nele

Ali,
entre folhas amassadas,
a madrugada mastiga
o silêncio.
As páginas respiram
um ar de oficina abandonada.
Há palavras riscadas
como nervos expostos.
Outras,
rabiscadas até sangrar grafite,
fingem que ainda podem
erguer um sentido.
Ele as revira
não como quem procura um poema,
mas como quem procura
os próprios destroços
depois do desabamento.
O rosto —
esse mapa vencido pela insônia —
já esqueceu
a forma do descanso.
Os olhos
não leem.
Escavam.
Porque escrever
nunca foi iluminar a noite.
Foi aceitar
que a noite também escreve
dentro da carne.
Cada verso recusado
é uma vértebra deslocada.
Cada metáfora
uma prótese
que mal sustenta
o peso da manhã.
Então ele percebe
que o poema
não nasceu para organizar
as peças.
Nasceu
porque elas já estavam partidas.
E talvez seja essa
a única sinceridade possível:
a linguagem
é um vidro estilhaçado
que insiste
em chamar seus cacos
de espelho.
As desculpas chegam
vestidas de beleza.
As mentiras,
de delicadeza.
A memória
aprendeu cedo
a maquiar ruínas.
Mas o papel
não esquece.
Recebe tudo:
o risco,
a hesitação,
o corte,
a palavra morta
ao lado da palavra impossível.
Sentado no chão,
ele já não enfrenta
a folha.
Enfrenta
o homem
que continua inventando poemas
para adiar
o instante em que precisará admitir
que nenhuma frase recompõe
o que a vida
quebrou.
Ainda assim,
a mão retorna.
Não por esperança.
Mas porque até o fracasso,
quando encontra uma linguagem,
respira.
— Adam Donaldson Powell
Esse poema desloca o foco da figura biográfica para uma reflexão sobre a criação, a fragmentação e o fracasso, evocando temas recorrentes associados a Gullar sem reproduzir sua voz de maneira próxima.

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