que sustenta 🇧🇷✍🏻

— Adam Donaldson Powell

o que sustenta

três poemas sobre reparo, fardo e cuidado

I. a terra dos especialistas

(Reparo)

Corremos.

Não uns em direção aos outros,

nem em direção

ao que está se desfazendo,

mas em direção à porta

cuja placa

promete soluções.

O advogado

resolverá

aquilo

sobre o que jamais tivemos coragem

de falar.

O contador

organizará

os anos

de números

que deixamos esquecer.

O cirurgião

costurará

o que nós mesmos

rasgamos.

O psicólogo

carregará

aquilo

que nunca quisemos

erguer

com as próprias mãos.

O especialista em estilo de vida

traça linhas retas

sobre mapas

que ainda não percorreu.

Raramente chegamos

para aprender

a carregar,

a consertar,

a cuidar.

Chegamos, em vez disso,

com a esperança silenciosa

de que alguém

aperte

o parafuso frouxo,

lubrifique as dobradiças,

apague as marcas,

para que possamos continuar

na mesma velocidade,

pela mesma estrada,

em direção

ao próximo desmoronamento.

Queremos reparo,

não arrependimento.

Mas o especialista

não é mágico.

O neurocirurgião

às vezes

é apenas

um eletricista

que compreende

a corrente

que percorre

um ser humano.

O cirurgião vascular

é um encanador

que sabe

por onde

a vida

está escapando.

O advogado

é um tradutor

entre a lei

e o arrependimento.

O contador

fecha as contas

de tudo aquilo

que esperávamos

que ninguém

fosse contar.

O psicólogo

talvez tenha descoberto

sua vocação

no dia

em que ele próprio

não conseguiu

encontrar a saída.

O especialista em estilo de vida

conta os próprios passos

enquanto a vida

acontece

em outro lugar.

Porque ninguém

está fora

daquilo

que ensina.

Todos carregam

as próprias fraturas

sob o jaleco branco,

atrás do terno bem cortado,

entre palavras

cuidadosamente escolhidas.

Talvez

seja justamente por isso

que possam ajudar.

Mas ninguém

pode viver

a nossa vida

por nós.

Ninguém consegue

cuidar

de uma casa

cujo dono

só volta

depois

que o telhado

já desabou.

Talvez

a salvação

não comece

com o próximo especialista,

mas com uma pergunta

incomum:

Você pode me ensinar

a depender

um pouco menos

de alguém

sempre consertando

aquilo

que eu me recusei

a cuidar?

— Adam Donaldson Powell


II. quando dois corações batem como um só

(O Fardo)

Parece bonito,

dizer

que dois corações

batem como um só.

Mas o coração

é apenas

um músculo.

A vida

pede

muito mais.

Ela pede

um amigo

que escute

sem medo.

Um padre

que acolha

a dúvida

sem precisar

vencê-la.

Um psicólogo

capaz de ouvir

as mesmas palavras

pela centésima vez.

Uma mãe.

Um pai.

Um amor.

Alguém

que ria.

Alguém

que se lembre.

Alguém

que diga:

“Descansa agora.

Eu seguro isso por você.”

Quando a doença

ou o luto

se instalam,

muitas vezes

resta apenas

uma pessoa

para se tornar

tudo isso.

Uma pessoa

passa a ser

o porto,

o mapa,

o farol

e o barco salva-vidas.

A outra

carrega,

como consegue,

aquilo

que o corpo,

a mente

ou a própria vida

já não conseguem

suportar.

Nenhuma das duas

escolheu isso.

Mas, pouco a pouco,

um livro-caixa invisível

começa

a crescer.

Não

de dinheiro.

Mas de noites

que nunca foram dormidas.

Palavras

que nunca foram ditas.

Lágrimas

que precisaram esperar.

Sorrisos

oferecidos

a crédito.

Porque o amor

não faz

contabilidade.

Não calcula

quem deu mais.

Ele simplesmente

dá.

Até o dia

em que descobre

que até o coração

pode falir.

E não existe

vergonha

nisso.

Porque ninguém

foi criado

para ser,

ao mesmo tempo,

melhor amigo,

pastor,

psicólogo,

pai ou mãe,

enfermeiro,

companheiro

e lar.

Dois corações

podem bater

no mesmo compasso.

Mas jamais

podem substituir

uma paisagem inteira

de pessoas.

Talvez

o amor mais profundo

não diga:

“Eu vou ser tudo para você.”

Talvez diga:

“Vamos encontrar

outras pessoas

que possam

carregar isso

junto conosco.”

Porque,

quando

dois corações

batem como um só,

o mundo

ao redor deles

também precisa

bater

um pouco junto.

— Adam Donaldson Powell


III. a arte silenciosa da manutenção

(Cuidado)

Colocamos telhados

em nossas casas.

Pintamos as paredes

antes

que a chuva

alcance a madeira.

Trocamos o óleo

antes

que a luz

do painel

acenda.

Ninguém

chama isso

de heroísmo.

É apenas

manutenção.

E, no entanto,

vivemos

como se

o coração

não precisasse

do mesmo cuidado.

Esperamos.

Até que as conversas

endureçam.

Até que o riso

vá embora.

Até que o amor

traga as marcas

de carregar

peso demais

por tempo demais.

Então procuramos

alguém

que salve

aquilo

de que nunca

cuidamos.

Mas a vida

não se sustenta

por grandes

operações de resgate.

Ela se sustenta

pelas pequenas.

Um telefonema

sem motivo especial.

Uma mão

sobre o ombro.

Uma refeição

servida à mesa

antes

que alguém peça.

Um pedido

de desculpas

antes

que ele se torne necessário.

O perdão,

antes

que o ressentimento

crie raízes.

A manutenção

raramente

parece

um milagre.

Ela se parece

muito mais

com

uma terça-feira comum.

O café

já passado.

A luz da varanda

acesa

antes

que o outro

chegue em casa.

A pergunta:

“Como você está?”

feita

antes

que a resposta seja:

“Não muito bem.”

Porque aquilo

que sustenta

uma vida

quase nunca

é o grande acontecimento

que ocorre

uma única vez.

É a pequena coisa

que acontece

de novo

e de novo.

É assim

que a ponte

permanece firme.

É assim

que a casa

continua de pé.

É assim

que a floresta

resiste.

É assim

que o coração

permanece inteiro.

E talvez

o amor

não seja,

antes de tudo,

aquilo

que nos salva

depois

que tudo desmorona.

Talvez

o amor

seja

chegar

um pouco antes.

Perceber

a pequena rachadura.

Lubrificar

as dobradiças.

Regar

o jardim.

Sentar-se

ao lado de alguém

antes

que essa pessoa

precise cair.

Porque a manutenção

não é

o oposto

do amor.

Ela é

o amor

chegando

antes

que seja necessário.

— Adam Donaldson Powell

Leave a Reply

Foggy forest with trees twisted into calligraphic words

latest posts

categories

subscribe to my blog

Discover more from osoparavos.com

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading