— Adam Donaldson Powell
o que sustenta
três poemas sobre reparo, fardo e cuidado

I. a terra dos especialistas
(Reparo)
Corremos.
Não uns em direção aos outros,
nem em direção
ao que está se desfazendo,
mas em direção à porta
cuja placa
promete soluções.
O advogado
resolverá
aquilo
sobre o que jamais tivemos coragem
de falar.
O contador
organizará
os anos
de números
que deixamos esquecer.
O cirurgião
costurará
o que nós mesmos
rasgamos.
O psicólogo
carregará
aquilo
que nunca quisemos
erguer
com as próprias mãos.
O especialista em estilo de vida
traça linhas retas
sobre mapas
que ainda não percorreu.
Raramente chegamos
para aprender
a carregar,
a consertar,
a cuidar.
Chegamos, em vez disso,
com a esperança silenciosa
de que alguém
aperte
o parafuso frouxo,
lubrifique as dobradiças,
apague as marcas,
para que possamos continuar
na mesma velocidade,
pela mesma estrada,
em direção
ao próximo desmoronamento.
Queremos reparo,
não arrependimento.
Mas o especialista
não é mágico.
O neurocirurgião
às vezes
é apenas
um eletricista
que compreende
a corrente
que percorre
um ser humano.
O cirurgião vascular
é um encanador
que sabe
por onde
a vida
está escapando.
O advogado
é um tradutor
entre a lei
e o arrependimento.
O contador
fecha as contas
de tudo aquilo
que esperávamos
que ninguém
fosse contar.
O psicólogo
talvez tenha descoberto
sua vocação
no dia
em que ele próprio
não conseguiu
encontrar a saída.
O especialista em estilo de vida
conta os próprios passos
enquanto a vida
acontece
em outro lugar.
Porque ninguém
está fora
daquilo
que ensina.
Todos carregam
as próprias fraturas
sob o jaleco branco,
atrás do terno bem cortado,
entre palavras
cuidadosamente escolhidas.
Talvez
seja justamente por isso
que possam ajudar.
Mas ninguém
pode viver
a nossa vida
por nós.
Ninguém consegue
cuidar
de uma casa
cujo dono
só volta
depois
que o telhado
já desabou.
Talvez
a salvação
não comece
com o próximo especialista,
mas com uma pergunta
incomum:
Você pode me ensinar
a depender
um pouco menos
de alguém
sempre consertando
aquilo
que eu me recusei
a cuidar?
— Adam Donaldson Powell
II. quando dois corações batem como um só
(O Fardo)
Parece bonito,
dizer
que dois corações
batem como um só.
Mas o coração
é apenas
um músculo.
A vida
pede
muito mais.
Ela pede
um amigo
que escute
sem medo.
Um padre
que acolha
a dúvida
sem precisar
vencê-la.
Um psicólogo
capaz de ouvir
as mesmas palavras
pela centésima vez.
Uma mãe.
Um pai.
Um amor.
Alguém
que ria.
Alguém
que se lembre.
Alguém
que diga:
“Descansa agora.
Eu seguro isso por você.”
Quando a doença
ou o luto
se instalam,
muitas vezes
resta apenas
uma pessoa
para se tornar
tudo isso.
Uma pessoa
passa a ser
o porto,
o mapa,
o farol
e o barco salva-vidas.
A outra
carrega,
como consegue,
aquilo
que o corpo,
a mente
ou a própria vida
já não conseguem
suportar.
Nenhuma das duas
escolheu isso.
Mas, pouco a pouco,
um livro-caixa invisível
começa
a crescer.
Não
de dinheiro.
Mas de noites
que nunca foram dormidas.
Palavras
que nunca foram ditas.
Lágrimas
que precisaram esperar.
Sorrisos
oferecidos
a crédito.
Porque o amor
não faz
contabilidade.
Não calcula
quem deu mais.
Ele simplesmente
dá.
Até o dia
em que descobre
que até o coração
pode falir.
E não existe
vergonha
nisso.
Porque ninguém
foi criado
para ser,
ao mesmo tempo,
melhor amigo,
pastor,
psicólogo,
pai ou mãe,
enfermeiro,
companheiro
e lar.
Dois corações
podem bater
no mesmo compasso.
Mas jamais
podem substituir
uma paisagem inteira
de pessoas.
Talvez
o amor mais profundo
não diga:
“Eu vou ser tudo para você.”
Talvez diga:
“Vamos encontrar
outras pessoas
que possam
carregar isso
junto conosco.”
Porque,
quando
dois corações
batem como um só,
o mundo
ao redor deles
também precisa
bater
um pouco junto.
— Adam Donaldson Powell
III. a arte silenciosa da manutenção
(Cuidado)
Colocamos telhados
em nossas casas.
Pintamos as paredes
antes
que a chuva
alcance a madeira.
Trocamos o óleo
antes
que a luz
do painel
acenda.
Ninguém
chama isso
de heroísmo.
É apenas
manutenção.
E, no entanto,
vivemos
como se
o coração
não precisasse
do mesmo cuidado.
Esperamos.
Até que as conversas
endureçam.
Até que o riso
vá embora.
Até que o amor
traga as marcas
de carregar
peso demais
por tempo demais.
Então procuramos
alguém
que salve
aquilo
de que nunca
cuidamos.
Mas a vida
não se sustenta
por grandes
operações de resgate.
Ela se sustenta
pelas pequenas.
Um telefonema
sem motivo especial.
Uma mão
sobre o ombro.
Uma refeição
servida à mesa
antes
que alguém peça.
Um pedido
de desculpas
antes
que ele se torne necessário.
O perdão,
antes
que o ressentimento
crie raízes.
A manutenção
raramente
parece
um milagre.
Ela se parece
muito mais
com
uma terça-feira comum.
O café
já passado.
A luz da varanda
acesa
antes
que o outro
chegue em casa.
A pergunta:
“Como você está?”
feita
antes
que a resposta seja:
“Não muito bem.”
Porque aquilo
que sustenta
uma vida
quase nunca
é o grande acontecimento
que ocorre
uma única vez.
É a pequena coisa
que acontece
de novo
e de novo.
É assim
que a ponte
permanece firme.
É assim
que a casa
continua de pé.
É assim
que a floresta
resiste.
É assim
que o coração
permanece inteiro.
E talvez
o amor
não seja,
antes de tudo,
aquilo
que nos salva
depois
que tudo desmorona.
Talvez
o amor
seja
chegar
um pouco antes.
Perceber
a pequena rachadura.
Lubrificar
as dobradiças.
Regar
o jardim.
Sentar-se
ao lado de alguém
antes
que essa pessoa
precise cair.
Porque a manutenção
não é
o oposto
do amor.
Ela é
o amor
chegando
antes
que seja necessário.
— Adam Donaldson Powell

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