Memórias no exílio 🇧🇷✍🏻

— Adam Donaldson Powell

Memórias no exílio

Há um instante, quase sutil demais para que o coração o perceba, em que a lembrança
deixa de pertencer àquele que se lembra.

Antes de ser pronunciada, ela permanece encerrada como uma concha encerra o mar:
seu silêncio ainda guarda o calor da mão que a protegeu,
seus contornos foram moldados por uma única vida,
seu perfume ainda não consentiu em entregar-se ao ar.

Mas a linguagem não é um armário.
É clima.

No exato instante em que uma lembrança atravessa o limiar dos lábios,
ela abandona a câmara singular onde acreditava estar segura.
Suas cores se afrouxam.
Suas margens tornam-se acolhedoras.
A voz que a pronunciou já não consegue recordar
se ofereceu algo de si
ou apenas revelou aquilo que jamais lhe pertenceu por inteiro.

Pois talvez a memória sempre tenha desejado o exílio.

Ela se eleva como o pólen invisível de um pomar
cujas flores nenhum olhar jamais contou.
Sobe acima dos telhados da consciência solitária,
até uma região onde tardes esquecidas,
o sal na manga de uma avó,
a hesitação antes da primeira confissão,
a sombra da chuva atravessando a janela da infância,
e a tristeza sem nome dos desconhecidos
reconhecem-se umas às outras sem necessidade de apresentação.

Ali elas se misturam com uma delicadeza admirável.

Uma lembrança empresta seu crepúsculo à primavera de outra.
Um perfume toma emprestada a forma de um rosto.
Uma despedida descobre que há muito vinha preparando
a chegada de alguém que ainda não encontrou.
Nada permanece fiel à cronologia,
e, ainda assim, tudo se torna mais profundamente verdadeiro.

Talvez o céu, se de fato se ocupa das coisas da terra,
seja composto menos de almas do que dessas lembranças libertadas,
desprendidas da posse,
pacientemente dissolvendo as fronteiras
que nossos nomes, nossas histórias e nossas frágeis certezas
confundiram com permanência.

E, em algum lugar sob essa atmosfera imensurável,
uma criança para diante do perfume do pão recém-saído do forno,
ou uma mulher escuta passos numa cidade desconhecida,
ou um velho ergue os olhos exatamente ao ângulo da luz do entardecer,
acreditando que aquele sentimento lhe pertence por completo.

Ele não pode saber
que aquilo que estremece dentro dele
talvez um dia tenha pertencido a outra boca,
a outro século,
ou a outra ternura.

Pois as memórias, uma vez pronunciadas,
já não são posses.

Tornam-se clima.

E é desse vasto e invisível clima
que o futuro recolhe suas sementes impossíveis,
tecendo, a partir das colheitas abandonadas de incontáveis vidas,
aqueles instantes que, quando enfim chegarem,
parecerão — como toda memória verdadeira sempre pareceu —
ao mesmo tempo absolutamente novos
e misteriosamente lembrados.

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