— Adam Donaldson Powell
Trens de poesia
Agora que cheguei aos anos tardios,
o tempo me transborda;
um deserto inteiro
de areia preciosa
escorre, incessante,
pela ampulheta
da minha vida.
E, enquanto meus passos,
já mais contidos,
vão estreitando também
minha antiga dependência
do calendário
e do relógio,
uma serenidade inédita
abranda tanto o fazer
quanto o fervor.
Continuo percorrendo o mundo,
mas agora em trens de poesia,
em vez de seguir
de aeroporto em aeroporto,
de hotel em hotel,
atrás dos cartões-postais obrigatórios
e daqueles raros recantos selvagens
que ainda resistem
além das trilhas mais batidas.
Recrio, porém,
na cozinha da minha casa,
aromas de terras distantes
e sabores que o tempo não apagou,
enquanto escrevo poemas e ensaios,
em seis idiomas,
para velhos amigos
e para desconhecidos
que o destino ainda me há de apresentar.
Assim,
minha longa vida,
feita de viagens
e da busca incessante pela aventura,
continua a inventar novos caminhos
por meio de memórias que se projetam
como hologramas,
e de jornadas sem idade,
para além do alcance do próprio tempo…
mesmo quando o coração,
de vez em quando,
perde um compasso.

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