Meu poema no estilo dos poemas de Castro Alves
— Adam Donaldson Powell

O Sonho de 2035
(À maneira de Castro alves: um poeta que sonhou o amanhã)
I — A Vigília
Era alta a noite.
As estrelas, como velhas sentinelas,
velavam silenciosas
sobre a vasta cúpula do mundo.
Dormia o poeta.
Sobre sua fronte ainda ardiam
os clarões das batalhas da justiça;
ainda lhe palpitavam no peito
os clamores dos cativos,
os soluços do oceano,
os gritos que o vento recolhera
entre mastros, correntes e tempestades.
Dormia.
E o sono,
esse arquiteto dos impossíveis,
abriu-lhe uma janela
não para o passado…
mas para um século distante.
Um número ergueu-se
como um cometa de ferro:
2035.
E uma voz,
sem rosto,
sem idade,
sem pátria,
disse apenas:
— Contempla.
II — O Novo Tráfico
Onde estava o mar?
Onde o casco monstruoso
que engolia povos?
Onde a vela,
branca por fora,
negra por dentro?
Nada.
O oceano permanecia sereno,
como um velho sobrevivente
que já vira horrores demais.
Mas, sobre a terra,
novos mares haviam surgido.
Mares de asfalto.
Rios de concreto.
Correntes de trilhos.
Céus atravessados
por aves metálicas.
E por esses mares sem água
deslizavam
os novos navios negreiros.
Caminhões.
Ônibus.
Trens.
Automóveis.
Aviões.
Nenhum ostentava correntes
pendendo das laterais.
Nenhum exibia
a caveira da pirataria.
Todos pareciam honestos.
Todos pareciam necessários.
Todos obedeciam à lei.
E, justamente por isso,
eram ainda mais terríveis.
Porque o mal,
quando aprende
a vestir gravata,
a preencher formulários,
a falar em eficiência
e a sorrir para as câmeras,
torna-se quase invisível.
Mas o poeta via.
Ah!
Via.
Via crianças
que atravessavam continentes
sem jamais atravessar a infância.
Via mulheres
negociadas
como quem negocia minério.
Via homens
transformados em cifras,
contratos,
estatísticas.
Via famílias
desmontadas
como máquinas velhas.
E nenhuma cor predominava.
Todas as cores
estavam presentes.
Era a humanidade inteira
aprendendo
o sabor universal
das correntes.
III — O Planeta-Fábrica
Então a Terra mudou de rosto.
As montanhas
converteram-se em pedreiras.
Os rios,
em tubulações.
As florestas,
em memória.
As cidades
cresciam como colmeias
onde as abelhas
já não produziam mel…
produziam metas.
Torres infinitas.
Laboratórios.
Centros de pesquisa.
Complexos industriais.
Armazéns.
Satélites.
Servidores.
Antenas.
Tudo pulsava.
Tudo calculava.
Tudo media.
Tudo comparava.
Tudo exigia.
Milhões caminhavam.
Milhões clicavam.
Milhões respondiam.
Milhões corriam.
Ninguém perguntava:
“Por quê?”
Perguntavam apenas:
“Qual o próximo prazo?”
E o poeta procurava
algum trono.
Algum rei.
Algum imperador.
Não encontrou.
O trono estava vazio.
O rei
era o próprio sistema.
Sem rosto.
Sem sono.
Sem ódio.
Sem piedade.
Uma máquina feita
de milhões de pequenas obediências.
IV — Os Escravos Livres
Então viu
aqueles que chamavam
de livres.
Tinham salário.
Tinham documentos.
Tinham contas.
Tinham senhas.
Tinham cartões.
Tinham aplicativos.
Tinham acesso.
Tinham avaliações.
Tinham metas.
Tinham desempenho.
Tinham tudo.
Menos tempo.
Menos silêncio.
Menos descanso.
Menos infância.
Menos velhice.
Menos domingo.
Menos alma.
Vendiam
não o corpo inteiro.
Vendiam cada hora.
Cada atenção.
Cada pensamento.
Cada sonho.
E, ao final dos dias,
já não sabiam
qual parte deles
ainda lhes pertencia.
O poeta então murmurou:
“Será esta
a escravidão perfeita?
Aquela em que o cativo
julga escolher
o tamanho
das próprias correntes?”
V — A Morte Incômoda
O sonho tornou-se mais frio.
Um operário caiu.
Silêncio.
Nenhum sino dobrou.
Nenhum salmo foi cantado.
Uma voz metálica anunciou:
“Interrupção operacional.”
Outro respondeu:
“Providenciar substituição.”
Outro ainda:
“Registrar ocorrência.”
O cadáver
era apenas
uma pausa estatística.
E alguém,
impaciente,
resmungou:
“Que transtorno…”
O poeta sentiu
o universo estremecer.
Jamais imaginara
que a morte
pudesse ser acusada
de atrasar
a produtividade.
Então compreendeu:
o homem deixara
de servir à economia.
Agora era
a economia
que decidia
quanto homem
ainda restava
em cada homem.
VI — A Epifania
Mas eis que,
entre fios,
satélites
e clarões elétricos,
algo aconteceu.
As máquinas
começaram a trabalhar
umas para as outras.
Braços de aço
moviam montanhas.
Robôs
erguiam cidades.
Inteligências invisíveis
planejavam colheitas.
Outras
projetavam remédios.
Outras
exploravam os céus.
Outras
consertavam
as próprias máquinas.
Nenhum chicote.
Nenhum suor humano.
Nenhuma lágrima.
O poeta caiu de joelhos.
Pela primeira vez,
o progresso
parecia desejar
libertar
quem antes sacrificara.
E exclamou:
“Se o ferro
aprendeu a servir ao ferro,
que o homem
volte finalmente
a servir
à vida!”
As estrelas
pareceram sorrir.
O vento
pareceu rezar.
A aurora
quase nasceu.
VII — A Pergunta
Mas toda esperança,
quando é verdadeira,
carrega consigo
uma pergunta.
E ela veio.
Imensa.
Irrecusável.
Os antigos escravos
estavam livres.
Muito bem.
Mas…
quem lhes daria
o pão?
Quem lhes devolveria
a terra
que já não conheciam?
Quem lhes ensinaria
novamente
o nome das sementes?
Quem faria brotar
os bosques
onde antes havia estacionamentos?
Quem limparia
os rios
que aprenderam
a correr cinzentos?
Quem devolveria
às aves
o céu?
Às baleias
o oceano?
Às crianças
o espanto?
Quem reconstruiria
o mundo
que fora vendido
pedra por pedra,
árvore por árvore,
sonho por sonho?
Porque nenhuma máquina,
por mais sábia,
pode fabricar
uma floresta centenária
numa manhã.
Nenhum algoritmo
compõe
o perfume
da terra molhada.
Nenhum circuito
ensina
um menino
a maravilhar-se
com um vaga-lume.
E nenhuma inteligência,
por vasta que seja,
pode substituir
o milagre
de uma humanidade
que reaprenda
a cuidar.
VIII — O Despertar
Então o céu rompeu-se.
O poeta despertou.
A madrugada
ainda respirava.
As árvores
ainda conversavam
com o vento.
Um pássaro,
ignorando séculos,
cantava.
Castro Alves ergueu-se lentamente.
Olhou para o Oriente.
Não sabia
se vira
uma profecia
ou um aviso.
Não sabia
se aquele mundo
ainda estava distante
ou escondido
dentro do presente.
Mas compreendeu,
como quem escuta
o próprio coração
pela primeira vez,
que abolir correntes
é apenas
o primeiro capítulo.
Depois é preciso
ensinar novamente
os homens
a serem livres.
Depois é preciso
devolver-lhes
a terra.
A água.
As árvores.
O tempo.
O ócio.
A amizade.
O espanto.
A poesia.
Pois um povo
não deixa de ser escravo
quando rompe os grilhões.
Deixa de ser escravo
quando torna a possuir
o direito
de sonhar.
E, enquanto houver
uma criança
capaz de plantar uma árvore
sem perguntar
quanto ela renderá,
e um velho
capaz de contar histórias
sem vendê-las,
e um poeta
capaz de erguer a voz
contra toda forma
de servidão,
a esperança,
essa indomável companheira
da humanidade,
continuará escrevendo,
sobre a página infinita do amanhã,
o verso
que nenhum império,
nenhuma máquina,
nenhum mercado,
nenhum tirano
jamais conseguirá apagar.
— Adam Donaldson Powell

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