Desespero 🇧🇷✍🏻

— Adam Donaldson Powell

Esse poema se aproxima mais da energia de Pauliceia Desvairada: frases curtas, cortes abruptos, enumerações, imagens urbanas, humor amargo e uma identidade nacional em permanente conflito, sem reproduzir trechos ou a voz específica de Mário de Andrade: 

Grass and white sideline on a football pitch with players and stadium lights in background

Desespero

Acabou.

O juiz apitou
como quem fecha uma fábrica de domingos.

Silêncio.

Não.
Mentira.

O Brasil faz barulho até quando quebra.

Panela.
Moto.
Cachorro.
Fogos que sobraram da esperança.
Um menino perguntando:
— Perdemos mesmo?

Perdemos.

Perdemos o jogo.
A pose.
O retrato.
Aquela mania antiga de acreditar
que Deus também veste chuteiras.

Brasil.

Palavra grande.
Barriga maior ainda.

Cabe Amazônia.
Cabe favela.
Cabe soja.
Cabe garimpo.
Cabe missa.
Cabe terreiro.
Cabe maracatu.
Cabe funk.
Cabe viola desafinada.
Cabe pixação.
Cabe a velha benzedeira.
Cabe um executivo preso no trânsito.
Cabe o rio.
Cabe o concreto.
Cabe tudo.

Só não coube um gol.

Neymar parado.

Parado.

Estranha palavra.

Quem viveu de driblar
agora tropeça nas horas.

Olha a grama.

A grama olha de volta.

Conversa vegetal.

Nenhuma resposta.

As lágrimas…

Não eram água.

Eram calendário.

Escorriam anos.

Escorria Santos.
Barcelona.
Paris.
Contusão.
Promessa.
Comercial.
Vaias.
Aplausos.
Outra contusão.
Outra promessa.
Mais um amanhã.

Até descobrir
que amanhã
é um bicho muito mentiroso.

Última camisa.

Ninguém anuncia essas coisas.

Elas simplesmente acontecem.

A História fechou a porta
com delicadeza de carrasco.

E ficou um homem.

Só.

Sem o uniforme do mito.

Sem o filtro da televisão.

Sem os milhões de opiniões
especialistas em fracassos alheios.

Só um homem.

Chorando.

Que escândalo!

Herói não devia chorar.

Mas quem inventou os heróis
nunca pegou ônibus às seis.

Nunca esperou consulta.

Nunca perdeu o emprego.

Nunca envelheceu diante do próprio espelho.

O Brasil gosta de fabricar estátuas.

Depois compra martelo.

Nação engraçada.

Ama de joelhos.

Odeia em pé.

Esquece correndo.

Lembra cantando.

E amanhã…

Amanhã já estarão vendendo outra esperança
na banca da esquina.

Promoção.

Leve um sonho.
Ganhe uma ilusão.

Porque brasileiro
tem esse defeito magnífico:

morre um pouco.

Renasce fazendo piada.

A tristeza aqui
sempre aprende samba antes de ir embora.

Eu?

Eu também perdi.

Não sei exatamente o quê.

Talvez um pedaço daquele menino
que aprendia geografia
decorando sedes de Copa.

Talvez uma superstição.

Talvez o luxo
de acreditar
que uma taça consertava um país.

O estádio apagou.

As luzes da televisão apagaram.

Mas ficou acesa
uma pergunta inconveniente
feito poste aceso ao meio-dia:

Quem é o Brasil
quando ninguém levanta a taça?

Ninguém respondeu.

Ainda bem.

As perguntas grandes
não gostam de respostas rápidas.

— Adam Donaldson Powell 

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Soccer player standing alone at center circle in empty stadium at night

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